45 anos depois: o relato de um sobrevivente que foi obrigado a comer os amigos para não morrer de fome

Abandonado no deserto implacável e congelado da Cordilheira dos Andes, Fernando Parrado, na época com 22 anos de idade, estava certo de que iria morrer. Mesmo agora, 45 anos após o acidente de avião, que matou 29 pessoas e levou ele e os outros 15 sobreviventes a comer os cadáveres de seus amigos mortos ,para sobreviver por 72 dias nos Andes, Parrado lembra a sensação de desespero e sua certeza quase absoluta de que ele não conseguiria sair dali vivo.

“Não havia saída. De jeito nenhum”, contou ele ao DailyMail.com. “Até o último minuto do 72º dia pensei que ia morrer. Quando você está condenado a morrer por tanto tempo, o medo não desaparece. Estava com tanto medo que queria vomitar todos os dias, pois sentia cãibras no meu estômago por me achar um homem morto. Eu era um homem morto que andava. A esperança só prolongava a agonia”, disse.

Parrado, que é conhecido pela família e amigos como Nando, e outros 44 pessoas de Montevidéu, no Uruguai, estavam viajando para o Chile numa sexta-feira, 13 de outubro de 1972, quando o avião em que viajavam caiu no meio da Cordilheira dos Andes, a quilômetros de qualquer sinal de civilização. A maioria dos passageiros fazia parte de uma equipe de Rúgbi e de familiares dos jogadores, que tinham fretado o voo 571 da Força Aérea do Uruguai. A equipe iria jogar partidas em Santiago.
No final do segundo dia na montanha, 17 pessoas morreram por causa dos ferimentos causados pela queda, incluindo a mãe de Parrado e sua melhor amiga. Oito dias depois, sua irmã mais nova morreu em seus braços. No momento em que foram resgatados só restavam 16 sobreviventes. O socorro só veio depois que Parrado e outro jogador da equipe, Roberto Canessa, encontraram ajuda após 10 dias de caminhada pela neve.

Com poucas roupas de frio, sem equipamentos de comunicação e alimentos os sobreviventes tiveram que usar da criatividade e os restos do avião destruído, um Fairchild FH-227D, para se manterem vivos. Eles arrancaram as coberturas dos assentos do avião para fazer cobertores para enfrentar as baixas temperaturas.

O mais terrível foi a decisão de comerem os corpos de seus amigos que morreram. “A fome é o medo mais primitivo do ser humano”, diz Parrado. “Não saber quando você vai comer novamente é o medo mais incrível que um ser humano pode ter. E então, quando seu corpo começa a se alimentar, tudo o que você tem dentro é transformado em energia e você sente que isso está lhe matando”.

“Estava morrendo. Eu morreria em três, quatro, cinco, seis, dez dias. Eu estaria morto. Mas não estava morto. E você é um ser humano e você pensa e diz: “ok, o que eu faço agora?’ E pensei: ‘Tudo bem, a única comida que temos são cadáveres de nossos amigos e da equipe. Isso é o que temos’. E isso é – quando você tem uma opção, você decide. Se você tem duas opções, você tem que analisar para decidir. Mas se houver apenas uma opção? Não é um mistério, não é complicado. É mais fácil do que você pensa, pois só tem um única opção”, contou.

Parrado, agora com 67 anos, fala sobre o acidente simplesmente como um evento horrível que ocorreu em sua vida. Ele fala sobre a experiência com alguma emoção, mas ele não está traumatizado. Enquanto fala, sua voz é calma e confiante e ele afirma que “não há nada que eu não consiga dizer” sobre o desastre de 45 anos atrás.

“As lembranças do acidente não governam o meu dia ou a minha vida de forma alguma. Eu sou muito pragmático”, diz ele. “Fui educado por meu pai, que era o rei do pragmatismo. E, assim que saí daquela provação, no primeiro dia, meu pai me disse: ‘Olhe Nando, não há como você mudar o passado. Isso não será a coisa mais importante em sua vida. Você nasceu de novo. Não destrua sua segunda vida. Tenha uma vida’”.

“E é o que eu tenho feito, tendo uma vida. Então eu não sonho, eu não tenho pesadelos. Desde a primeira noite que passei no hospital (depois de ser resgatado) até a noite passada, nunca tive um único segundo de uma imagem do que aconteceu comigo enquanto dormi. Claro que às vezes eu penso nisso, mas geralmente encaro como algo pouco importante”, afirmou.

O uruguaio mudou de vida desde o acidente do avião, mas quando ele fala sobre isso agora, às vezes ele diz “lá”, como se o ponto onde o avião caiu está ali, ao virar a esquina ou em algum lugar onde ele pode facilmente chegar. “Lá é como estar na lua, Vênus ou Marte”, diz ele. “Não há nada. Absolutamente nada. E quando não quero dizer nada, não há nada. Não é como as Montanhas Rochosas (nos EUA), onde você pode ter uma cidade ou pode ver árvores de vez em quando. Por lá não há nada”.

Hoje, Parrado vive em Montevidéu e é um produtor de televisão bem sucedido e o atual presidente de uma empresa próspera que seu pai, Seler Parrado, começou em 1958. Ele foi casado com sua esposa Véronique, 58, por 37 anos. Eles têm duas filhas, com idade entre 34 e 32 e dois netos, com quatro e seis anos de idade.

Embora hoje fale com autoridade e confiança, nem sempre foi tão seguro. Nascido numa família de três filhos e de pais amorosos – Seler e Eugenia, uma ucraniana nascida em Montevidéu, Parrado era um pouco tímido e estranho. Ele conta que era um estudante comum, interessado em carros, praticava esportes e paquerava meninas. Ele e seu melhor amigo, Francisco ‘Panchito’ Abal, fizeram quase tudo juntos, embora o encantador e extrovertido Abal fosse mais bem sucedido do que seu desajeitado e tímido amigo.

Os dois também jogaram rúgbi juntos no Old Christians Club, uma equipe de Montevidéu. Abal foi um dos melhores jogadores da equipe ao lado de Parrado. Então, quando a equipe foi jogar algumas partidas no Chile, em 1972, os dois melhores amigos estavam no voo.

Com o intuito de pagar o voo fretado, a equipe precisava lotar o avião, de modo que os jogadores convenceram familiares e amigos a viajar com eles por um curto período de férias no Chile. Entre os convidados de Parrado estavam sua mãe e a irmã mais nova. A equipe fez a mesma viagem no ano anterior, então não havia preocupação entre os passageiros.

No entanto, devido ao mau tempo, no dia 12 de outubro os pilotos pousaram o Fairchild na Argentina antes de atravessarem os Andes. E a excursão da equipe foi adiada para a noite. Na tarde de 13 de outubro de 1972, o voo 571 decolou de Mendoza, na Argentina. Voou para o sul até uma passagem na Cordilheira dos Andes, que era baixa o suficiente para que o Fairchild passasse.

Enquanto eles ainda estavam no meio dos Andes, os pilotos julgaram mal a localização do avião e começaram a descer, pensando que já estavam no Chile. De acordo com o livro de 1974, Alive, de Piers Paul Read, a asa direita do avião atingiu o lado de uma montanha, se partindo e cortando a cauda da aeronave. Dois tripulantes e três dos jogadores foram arremessados de seus assentos para fora do avião. Depois disso, a asa esquerda do avião também se partiu.

O que restava do avião pousou em um vale a uma velocidade de cerca de 300 km/h e mais dois rapazes foram jogados para fora. A fuselagem atingiu o solo no ângulo direito e deslizou para baixo da encosta até que ele parou, quebrando as fileiras de assentos dentro do avião e esmagando muitos dos que estavam sentados, incluindo a mãe de Parrado, que morreu comprimida.

O Fairchild caiu numa área remota dos Andes, a cerca de 11.500 pés de altitude, na Argentina, perto da fronteira chilena. No acidente, 12 pessoas – incluindo aqueles que foram sugados para fora do avião – morreram e mais três pereceram no dia seguinte, incluindo o melhor amigo de Parrado, o “Panchito”.

O próprio Parrado ficou inconsciente no início do acidente e entrou em coma por dois dias, com uma lesão na cabeça. Os demais sobreviventes pensaram que o seu estado era tão grave que o ferimento logo o mataria. No entanto, ele chegou ao terceiro dia na montanha. Ele estava fraco e confuso, mas, de resto, estava bem.

continua…

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