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No décimo dia após o acidente os sobreviventes tomaram a difícil decisão (Getty Images)

Quando recobrou a consciência, Parrado começou imediatamente a cuidar de sua irmã mais nova, Susana, de 20 anos, a quem chamava carinhosamente de Susy. Ela estava semiconsciente, chamando sua mãe, orando ou às vezes cantando. Ela tinha arranhões em seu rosto e seus pés estavam gelados. Embora não tivessem médicos no avião, dois estudantes de medicina que estavam a bordo – Roberto Canessa e Gustavo Zerbino – acreditavam que a jovem sofrera graves ferimentos internos.

Parrado ficou com ela, aquecendo seus pés com as mãos, trazendo água, abraçando-a e confortando-a o melhor que pôde. Uma tarde, enquanto a abraçava, sua respiração desacelerou. Embora ele tenha tentado reanima-la, sua irmã se foi, deixando 27 sobreviventes. Era o oitavo dia na montanha.

Na manhã seguinte, Parrado enterrou sua irmã na neve ao lado do avião, sem conseguir chorar por ela do jeito que queria. “Eu acho que se isso acontecesse na cidade … seria extremamente difícil lidar com isso. Mas lá, você está tão tenso ou tão pressionado pelas circunstâncias e pela sobrevivência que não tem a força para ficar triste”, disse.

“Descobri algo por lá. Eu descobri raiva, raiva como algo que nunca senti antes. Provavelmente a raiva também me deu força. Raiva porque enterrei minha mãe com as mãos. Enterrei minha irmã, enterrei meus amigos e não senti nada. Eu não podia chorar, não podia sentir tristeza, não podia sentir nada. Eu pensei: ‘Nando, quem diabos é você? O que aconteceu com você?’ E fiquei muito irritado porque não me entendia. Eu deveria estar chorando, eu deveria estar sofrendo”, contou.

“Mas eu acho que o modo de sobrevivência, ele se desloca no seu cérebro e não deixa espaço para isso porque, se não, você não pode lutar contra a sobrevivência, contra o frio, a fome. Então, seu cérebro por si só … Eu acho que o cérebro rejeita os pensamentos que podem prejudicar sua sobrevivência. E fiquei muito zangado comigo mesmo porque não podia sentir nada”, prossegue.

De volta ao avião, depois de enterrar Susy, Parrado foi atingido com a realidade da situação. Embora ele estivesse ciente das terríveis circunstâncias que ele e seus colegas sobreviventes estavam, cuidar de sua irmã o distraiu e manteve sua mente fora dos horrores avassaladores ao seu redor. Naquele momento, ele diz em suas memórias, ele sabia com certeza que ele iria morrer.

“Lembro-me do medo de morrer. Eu não queria morrer e eu ia morrer. As pessoas me perguntam, como isso se sente? E não há como você explicar. Como você pode explicar? Imagine que, por causa de algo que você fez, você será colocado na cadeira elétrica. Como se sente quando amarram os braços à cadeira? Não é um bom sentimento. Bem, eu senti isso por 72 dias e 72 noites. Senti que aquelas montanhas estavam me roubando a minha vida. Mas eu ainda estava respirando”, desabafou.

Corpo de uma vítima próxima ao avião (Getty Images)

Mesmo antes de sua irmã morrer, Parrado estava obcecado com a ideia de fugir, mas agora o desejo de partir era maior. Os outros sobreviventes tinham a esperança de que fossem encontrados e resgatados. Mas, desde o início, ele sabia que teria que escapar se quisesse sobreviver e voltar para o pai, a coisa que ele mais queria.

“Eu vi o roteiro do que aconteceria … e eu disse, cara, isso vai ser o inferno. Nós vamos morrer. Isto é horrível. Isso é absolutamente horrível. Mas eu não quero morrer. Quero voltar para o meu pai. Eu quero viver. Eu não quero que as montanhas me roubem essa vida que eu tenho. Quero experimentar amor, quero experimentar uma família. Eu quero viver. Ainda estou respirando, quero viver. E para viver, teria que sair de lá”, disse.

No dia seguinte ao acidente, o capitão do time de rugby, Marcelo Perez, havia separado todo o alimento comestível no avião. Para os 28 sobreviventes iniciais, haviam: três garrafas de vinho, uma garrafa de whisky, uma garrafa de conhaque de cereja, uma garrafa de creme de menta, oito barras de chocolate, cinco barras de doce nougat, um pacote de biscoitos salgados, duas latas de mexilhões, uma lata de amêndoas salgadas, um pequeno frasco de pêssego, maçã e amora, alguns caramelos espalhados pelo chão da cabine e algumas ameixas secas que também foram espalhadas.

Apesar de Perez manter as rações pequenas para fazê-las durar mais tempo, sua minúscula dieta de chocolate e vinho de pouco adiantava para manter os jovens atletas. Eles tentaram outras fontes de comida. Buscaram palha nas almofadas dos assentos, mas estas eram recheadas de espuma. Também tentaram comer fungos da única rocha exposta ao sol perto do avião.

Não havia vegetação para no deserto dos Andes e, quando Susy morreu no oitavo dia, os 27 sobreviventes restantes começaram a sentir seus corpos esmorecendo. Muitos já chegaram à conclusão de que, se fossem sobreviver, teriam que comer os corpos de seus amigos mortos, embora isso fosse discutido em grupos menores. Foi então que Roberto Canessa iniciou uma conversa aberta sobre o assunto.

Naquela noite, já a décima na montanha, uma reunião foi convocada com os 27 sobreviventes – 26 rapazes e uma mulher. Todos concordaram que, se fossem sobreviver, pelo menos alguns deles teriam que escalar o caminho das montanhas. Para fazer isso, eles teriam que comer algo para recuperar suas forças, mas é claro, as únicas fontes de comida disponíveis eram os corpos de seus amigos.

“Eu sei que qualquer pessoa nesta situação que estivemos teria chegado à mesma conclusão ao mesmo tempo”, diz Parrado. “Imagine que o quarto que você está pegando fogo e há apenas uma porta. Para onde você corre?”

Mesmo que alguns tivessem mais dificuldades em aceitar a ideia do que os demais, todos concordaram que, se eles morressem, queriam que seus corpos fossem usados para que os outros pudessem sobreviver. “Nós fizemos um pacto entre os 27”, contou Parrado. “Nós concordamos: ‘Ok, se eu morrer, use meu corpo, pelo menos um de nós pode sair daqui e contar às nossas famílias quanto nós amamos’. Então fizemos uma das coisas mais bonitas. Doamos nossos corpos em plena consciência e é isso que aconteceu”.

“Sempre que vejo minhas filhas e meus netos eu olho nos olhos e abraço-os, digo que eles estão vivos por causa do que decidimos naquela noite no meio dos cumes dos Andes gelados”.

Depois que eles fizeram essa promessa, no início alguns ainda não comeram a carne dos mortos, mas ao final todos acabaram comendo. Parrado estava entre o primeiro grupo que comeu carne humana, depois que Canessa cortou pequenos pedaços para o grupo.

Parrado nos dias atuais (Arquivo pessoal)

“Foi incrivelmente difícil comer aquela carne. Mas é incrivelmente fascinante, de certa forma, como os seres humanos como uma espécie, nos acostumamos com horrores e coisas horríveis. Aprendemos a sobreviver em campos de concentração. Nos acostumamos a torturar, sobrevivendo em situações incríveis. Tudo isso parecia ser mais fácil do que comer carne de outro ser humano”, conta.

E a ideia de escapar das montanhas continuava, uma vez que a possibilidade de serem resgatados diminuía a cada dia. Uma vez que muitos dos sobreviventes estavam feridos e outros estavam mais fracos, apenas alguns foram selecionados para serem “expedicionários”, como eles os chamavam, para atravessar as montanhas.

No entanto, seus planos de fuga foram interrompidos na noite de 29 de outubro, quando uma avalanche enterrou a fuselagem do avião onde eles estavam dormindo. Parrado acordou coberto de neve e, por um momento, acreditava que ele iria morrer antes. No entanto, outros oito morreram naquela noite, incluindo o capitão da equipe de rugby Marcelo Perez e Liliana Methol, a última mulher sobrevivente.
A terceira e última parte desta incrível história você acompanha esta semana aqui n’O Elefante.

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