“Nós iremos tornar o Ocidente tão corrupto que irá cheirar mal”. Willi Munzenberg (Munzenberg – 1889-1940 – foi um ativista político comunista alemão)

Muito se tem falado sobre o que ocorre quando a mentalidade esquerdista assume a Economia. Cuba e Venezuela são exemplos notórios e próximos a nós, os quais nos mostram, de forma factual e dramática, o desastre de uma economia planificada.

Embora Mises nos tenha advertido, em um seminal ensaio publicado em 1920 (“O Cálculo Econômico sob o Socialismo”), que a mentalidade intervencionista (anticapitalista) conduz inevitavelmente à miséria, diversos países seguiram (e ainda seguem) o caminho da servidão acerca do qual nos alertava Hayek em 1944.

Na verdade, talvez o caminho para a servidão jamais seja bloqueado. Afinal, ainda que possa parecer estarrecedor, há muitos que insistem em propor esse caminho. Exemplo disso nos oferecem nossas Universidades, nas quais (especialmente nas humanidades, em seus sindicatos, centros acadêmicos, etc) ainda vige a mentalidade anticapitalista (intervencionista) de esquerda. Ou seja, nelas ainda são defendidas ideias que, se implementadas, são causa de miséria.

Mas, além de seus efeitos depauperantes sobre a Economia, quais são os efeitos da mentalidade esquerdista (“progressista”) nos costumes?

Um exemplo esclarecedor do que ocorre quando a mentalidade esquerdista assume a orientação dos costumes é o de San Francisco, nos USA.

Ela foi, com efeito, o centro mundial da contracultura nos anos 1960. Nela diversas ideias engendradas pelas mentes de autores marxistas, tais quais os da Escola de Frankfurt, se concretizaram. Cientes de que não poderiam enfrentar diretamente o Capitalismo em sociedades democráticas, os marxistas decidiram enfrentá-lo indiretamente mediante um ataque aos costumes. Ou seja, decidiram atacar as “forças vitais” da sociedade civilizada: os valores morais. Eis a grande “traição dos intelectuais” que persiste até hoje.

Assim, em San Francisco (a exemplo do que ocorrera em outras cidades naquele período e posteriormente) se concentraram diversas ideias “revolucionárias”, as quais fizeram parte daquilo que se convencionou chamar de “contracultura”, como as ideias de ‘amor livre’ (e, mesmo, de ‘pansexualismo’), do irrestrito ‘uso de [todo tipo] de drogas’, da ‘resistência’ à guerra do Vietnam (e a toda forma de poder militar e, mesmo, autoridade), etc. Algumas dessas ideias, aliás, encontram hoje suporte em muitas Universidades (sendo causa de seu vilipêndio). Nesse ínterim passou a fazer parte da agenda da esquerda desestabilizar aquelas instituições que surgiram (espontaneamente) justamente para assegurar nossa prosperidade, como propriedade privada, cooperação social mediante divisão do trabalho, empreendedorismo e, claro, os valores morais que passaram a ser protegidos (com códigos morais, legais, etc) em algum ponto de nosso processo evolutivo e civilizatório.

Dessa forma, a aversão de muitos de nossos estudantes e professores seja à polícia e às forças armadas (à autoridade em geral), bem como aos valores que pavimentaram o caminho para a civilização ocidental, demonstram que a contracultura dos anos 1960 ainda vive: sobretudo nas Universidades.

Mas o ponto é que os diversos experimentos da esquerda (“progressistas”) falharam miseravelmente. San Francisco é apenas um exemplo da decadência moral e do vilipêndio humano. Embora alguns digam que o ápice do experimento realizado em San Francisco tenha sido o ‘Summer of love’, de 1967, no qual foram celebrados o ‘amor livre’ e a ‘contracultura’ em geral, esse experimento não ficou restrito aos anos 1960. Naquela década foram semeadas algumas ideias que tiveram consequências nefastas nas décadas seguintes, as quais são hoje mensuráveis.

No ‘summer of love’ de 1967 dezenas de milhares de jovens se dirigiram a San Francisco para viver em comunidades e praticar o ‘amor livre’ (expressão pomposa para a irrestrita promiscuidade sexual), para usar todos os tipos disponíveis de drogas, para protestar contra todos os valores estadunidenses e ocidentais (dentre os quais está a ideia mesma de livre mercado), etc.

Depois, muitos desses jovens voltaram para suas Universidades e se tornaram, nas décadas seguintes, professores, gestores universitários, políticos, artistas, etc. Ou seja: aquele mesmo niilismo vivido por eles nos anos 1960 passou a integrar sua agenda Universitária e suas políticas educacionais e culturais, especialmente (mas não apenas) a partir das humanidades nas Universidades (veja-se, por exemplo, o livro “Os radicais nas Universidades”, de Roger Kimball). Dado assumirem que a civilização ocidental é “opressora”, decidiram, então, promover o colapso dos pilares da civilização ocidental. Ou seja: o mesmo niilismo vivido por eles nos anos 1960 eles o tentaram impor à sociedade mediante, por exemplo, as instituições educacionais, políticas e culturais.

Mas qual o efeito do experimento esquerdista nos costumes?

Voltemos a San Francisco. Mas aos dias atuais.

Hoje San Francisco é referida por muitos pelo termo nada laudatório “shithole”. Sim, uma cloaca. Além de ser uma das cidades mais caras de se viver nos USA, ela é, também, a mais suja. Uma investigação recente feita pela NBC passou por 153 quadras do centro da cidade (incluindo diversos pontos turísticos) em busca de lixo, seringas e fezes. Havia lixo esparramado em abundância em todas as quadras. Seringas eram encontradas espalhadas em 41 quadras. 96 quadras estavam imundas com pilhas de fezes e encharcadas de urina. A cidade usa 60 milhões de dólares de seu orçamento para limpar as ruas. Mesmo assim o risco de contaminação é altíssimo, segundo revela a mesma investigação. E por detrás dessa situação há os “descendentes da contracultura”, os quais realmente sofrem as consequências da glamorização do uso de drogas, da promiscuidade, etc. Eles vivem nas ruas e se comportam como os coadjuvantes da série ‘The Walking Dead’. Brigas, roubos, cenas de homicídio, etc, fazem parte desse mesmo cenário, no qual as pessoas são mantidas presas à dependência e à assistência. Parte da garantia dessa dependência é assegurada pela administração da cidade, a qual distribui atualmente cerca de 400 mil seringas por mês para que os usuários de heroína se droguem “responsavelmente” (como se alguém que se arrasta como um zumbi encharcado em fezes e urina estivesse preocupado em não contrair vírus tais o HIV).

Essa é, com efeito, a “utopia esquerdista”. Trata-se de um experimento esquerdista nos costumes que, a exemplo do que ocorre na Economia, conduz à catástrofe. Não surpreende, então, que desde 1964 (com a eleição de John F. Shelley) San Francisco seja administrada pela esquerda estadunidense (pelo partido Democrata). Não se trata de coincidência. A esquerda tradicionalmente subsidia uma cultura focada na decadência. Seguindo a proposta de Munzenberg, a esquerda tem sido eficiente em corromper culturas ao ponto de fazê-las “cheirar mal” (literalmente, inclusive).

Mas esse é apenas um exemplo do que ocorre quando a mentalidade esquerdista, “progressista”, invade os costumes. Quando assumem a Economia, causam miséria. Quando influenciam os costumes, causam a dissolução do tecido moral e o caos social. Assim, países como Venezuela e cidades como San Francisco são paradigmas da “utopia esquerdista”. Na verdade, uma distopia.

E essa mesma decadência segue sendo promovida, por exemplo, desde dentro de nossas Universidades.

Embora a experiência mesma nos tenha mostrado que experimentos como a ‘economia planificada’ e a ‘contracultura’ (rejeição dos valores que passaram pelo teste do tempo) tenham efeitos calamitosos, tais ideias seguem sendo propagadas desde nossas Universidades. Não surpreende, pois, que alguns de nossos Campi, especialmente na área das Humanidades, em muitos aspectos se assemelhem com aquele cenário visto em San Francisco. Ou seja, com uma cloaca.

(Texto de Carlos Adriano Ferraz. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito)

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