A infanta Margarita, filha de Felipe IV, e Velázquez, pintor do rei, passaram parte da noite de 2 de julho de frente para a parede. Não, não se trata de um castigo à maneira antiga, é o começo do vídeo sobre o estudo técnico que acaba de ser feito na obra mais emblemática do Museu do Prado, o quadro As Meninas, pintado em 1656 pelo artista que se retratou na tela.

Muito se tem fantasiado sobre o que acontece nos museus depois que se fecham as portas, mas a realidade mostra que, lá dentro, a equipe continua trabalhando. Como aconteceu na noite da primeira segunda-feira deste mês, depois que os visitantes da sala 12 do Prado – onde normalmente há pelo menos umas 20 pessoas apreciando As Meninas – e dos outros espaços e galerias deixaram a pinacoteca. A partir desse momento, a equipe de Serviço e Documentação Técnica e Laboratório submeteu o quadro a mais de cinco horas de análise milimetricamente planejada durante vários meses.

Embora as atividades a portas fechadas estejam dentro da normalidade dos museus, o menor movimento de As Meninas pertence ao campo do excepcional, quase histórico. É uma obra que não se empresta. Integra o acervo do Prado desde a inauguração da casa, em 1819, e só saiu dali durante a Guerra Civil Espanhola, quando a Infanta Margarita e suas meninas buscaram refúgio em Genebra. A resistência a mover a pintura é tanta que não a mudaram de sala nem para a exposição Velázquez e a Família de Felipe IV, realizada no mesmo museu em 2013.

Abre-se uma exceção quando o movimento é para o bem d’As Meninas, como agora ou em 1984, data do primeiro estudo técnico para a restauração da peça. Grande parte da tecnologia de 34 anos atrás ficou obsoleta, por isso foi preciso refazer as radiografias e aplicar uma nova técnica, a reflectografia de infravermelho. Os resultados desses testes vão mostrar que é imperceptível ao olho humano, mas que Velázquez talvez tenha deixado oculto em suas pinceladas. Análises químicas dos pigmentos permitirão conhecer a obra com maior precisão e serão incluídas no catálogo raisonné de Velázquez e sua escola no Museu do Prado, projeto dirigido por Javier Portús, chefe do Departamento de Pintura Espanhola.

Nenhum minuto das cinco horas que As Meninas passaram fora dos ganchos foi desperdiçado. As equipes trabalharam em sincronia para aproveitar o tempo integralmente. A moldura, de 1928, foi removida para limpeza por aspiração e escovamento e teve os grampos de fixação, colocados em 1984, substituídos por plaquetas de metal mais modernas e flexíveis.

Jaime García-Máiquez, um dos especialistas do serviço que coordenou o trabalho, disse ao EL PAÍS que a limpeza “não teve muito mistério. Todas as telas que não têm um painel de fundo inevitavelmente acumulam poeira. Era um problema menor, mas não acontecerá novamente”. Um painel de policarbonato transparente instalado na parte de trás do quadro impedirá o acúmulo de sujidade e o protegerá de vibrações leves ou golpes acidentais.

Nos 34 anos que separam as duas análises, o quadro As Meninas foi movido só uma vez, em 2010, confirma García-Máiquez; mas, como nesta ocasião, a obra não se afastou da parede de onde estava. “Apenas alguns metros”, diz o especialista.

Uma noite é tempo suficiente tanto para Beyoncé e Jay-Z gravarem um videoclipe no Louvre como para o Prado examinar sua obra mais icônica. Enquanto isso, equipes de limpeza, segurança e encarregados da manutenção das peças trabalham dia após dia ou noite após noite, sem serem vistos. Na manhã seguinte, como aconteceu em 3 de julho, tudo está de volta ao seu lugar e a Infanta Margarita e Velázquez voltam a olhar para o espectador como se nada tivesse acontecido.

 

E.P.

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