Neste artigo enviado ao Blog, o médico Aristóteles Cardona volta a falar sobre o polêmico uso da cloroquina que ainda divide opiniões. No texto, ele destaca que não há comprovação científica acerca da eficácia da droga contra a covid-19 e questiona toda a politização em torno do medicamento. Confiram:

A politização da Cloroquina

Esta semana decidi falar novamente sobre a cloroquina e toda a politização que envolveu a mesma em inúmeras notícias nas últimas semanas. Mais uma vez é preciso reforçar que não há nada na ciência e na medicina que embase ou que justifique a eficácia desta droga contra a Covid-19. Na verdade, o que vemos é uma politização sem precedentes de uma doença. A extrema-direita, especialmente no Brasil e nos Estados Unidos, abraçou essa substância como uma solução definitiva para a pandemia contrariando a maior parte das pesquisas que têm sido produzidas. Até agora, nenhuma revista ou publicação científica mundial séria apresentou vantagens para este uso.

Aqui no Brasil o medicamento manteve-se nas manchetes diárias ao longo da semana. Nada de ciência. Em pauta, a defesa de Bolsonaro como solução para o problema. Por conta disto já caíram dois ministros da saúde. O último, o médico Nelson Teich, durou menos de 1 mês no cargo. Sua saída se deu exatamente pela pressão do presidente, e do gabinete do ódio, pela orientação para uso da cloroquina. Como não aceitou, saiu para dar lugar a mais um militar no governo: o paraquedista Eduardo Pazuello.

Bastaram poucas horas do novo ministro para que saísse um documento do Ministério da Saúde, por imposição do Presidente, orientando o uso da cloroquina até mesmo em casos leves de Covid-19. Para quem é da área, uma breve leitura do documento já evidencia todas as suas incoerências. Salta aos olhos o pouco cuidado com o conhecimento científico e com a boa prática médica. Junto a isso, um detalhe: nenhum profissional assina o documento. Nenhum técnico. Ninguém. Resta então a pergunta: Por que Bolsonaro insiste com isso?

Mais uma bomba envolvendo o assunto surgiu ontem: o ex-ministro Mandetta soltou a informação que Bolsonaro queria modificar até a bula do medicamento. Queria incluir o tratamento para Covid-19 entre suas funções. Mais uma vez, sem o menor respaldo científico. Espero que um dia possamos descobrir o real motivo para essa defesa da cloroquina. Até agora, não parece mais do que a velha histeria da extrema-direita que teima em apontar vilões, enquanto não tem a menor capacidade de ajudar as pessoas neste momento de crise imensa.

Aristóteles Cardona Júnior

Médico de Família e Comunidade – Petrolina/PE

Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco

Fonte: Blog do Carlos Britto

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