Jair Bolsonaro. (Foto: Agência Reuters)

Neste artigo, o jornalista e professor Emanuel Andrade faz um retrato nu e cru de como a educação é tratada no país.

Boa leitura:

Acho que me faço de inocente quando não quero acreditar em certas verdades. Não que mentiras sinceras me interessem. Presenciei um casal jovem e de boa aparência no Expresso Cidadão de Petrolina tirando documentos. Não assinavam. Marido e mulher analfabetos. Assinatura foi com o dedo polegar na almofada de tinta. Questionei aos atendentes se era verdade aquilo porque me engano e penso que não existem mais nem semi e nem analfabetos. Imaginava que todo mundo saiba ler, mas pelo jeito milhares nunca disseram  a, e, i , o, u. Mesmo que não interpretem as desgraças humanas e as trapaças traiçoeiras da política, poderiam ler o básico. Mas os atendentes disseram que, diariamente, chegam cidadãos que nunca pisaram numa escola e aos montes.

Sei que esse quadro  se multiplica do Oiapoque ao Chuí.  Como faço imprensa, às vezes com engasgo  engulo as  informações propagandistas do poder público com suas estatísticas açucaradas de dados sobre resultado tal na educação como se aquilo fosse o fim do problema. Se um ou dois jovens entre cada mil conquistam título Y em algum programa, acham que descobriram a pólvora agora e comemoram com fogos de artifícios para o sorriso de gestores  se escancarar. E salpicam postagens com erros gramaticais nas redes sociais.

Ora ora, educação brasileira é uma farsa, um bolo artificial com cerejas de plástico em cima. A culpa é da Direita, Esquerda e tortos.  Estados e municípios têm verbas suficiente, acredito, para melhorar a educação mas não o fazem. Secretários de educação são bonecos manipulados com suas equipes fracas na escalada do voto pro padrinho político.  O panorama se repete:  Filhos de certos políticos até dos grotões estudam no exterior. Os pais não reclamam do custo de vida graças ao dinheiro público que absorvem.

E é sério que existem prefeitos que passaram na escola só pra botar o beabá na ordem do dia e ter o “DEploma” ou ” ” “SErtificado” ? Escolas decadentes são incontáveis e muitas ostentam nome de criaturas abomináveis como uma batizada  Costa e Silva na caatinga.  Professores não leem sequer 3 livros ao ano fora uma espiada nos didáticos. Como comprar livros se o salário mal paga as cintas ? Lembro de uma educadora que se recusou a receber jornal, pois queria que o governo desse o dinheiro da assinatura.

Passar no Enem com destaque, vejo como mérito do longevo histórico de cada aluno, não apenas da propaganda marketeira da escola pública ou privada. Governos e Ministério Público só dão as mãos quando o assunto é trágico. Nesse trajeto,  Educação brasileira é uma eterna esperança acostumada com investimentos supérfluos do faz de conta. E imagine agora com um MEC carnavalizando na UTI da zona com ministros patéticos urrando argumentos grotescos e cafonas. Sem mais, não estranho como anormal o sucesso do momento da canção “Caneta azul, azul caneta”. Se a educação brasileira não chega a todos,  analfabetismo reinará pra sempre. Um cidadão que não sabe ler e escrever, sequer assinar o nome, se torna um sujeito inexistente. Invisível. E a política pública que sonega educação é monitorada por crápulas. Caneta vermelha, vermelha caneta.

Emanuel Andrade/Jornalista e Professor

Fonte: Blog do Carlos Britto

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