A cena nesta quarta-feira, 16, no New Haven Green, um parque central localizado ao lado da Universidade de Yale, foi caótica. Bastava olhar as marcas deixadas pelas ambulâncias que invadiram o gramado para socorrer a avalanche de intoxicados pelo consumo de uma droga sintética cem vezes mais poderosa que a maconha. Até 76 casos de overdose foram contabilizados pelas autoridades em um dia, aos quais se somaram, horas depois, mais de vinte registros. É o mais recente exemplo da grave crise decorrente do uso de drogas que flagela os Estados Unidos.

As overdoses causaram 72.287 mortes no ano passado no país, de acordo com as últimas estatísticas do Centro de Controle de Doenças (CDC). É um número recorde, que representa um aumento de 10% em um ano e que ultrapassa o número de mortes em acidentes de trânsito e violência com armas de fogo. O relatório da agência foi divulgado enquanto os serviços de emergência tentavam conter a situação em Connecticut.

Toni Harp, prefeito de New Haven, insistiu que o episódio é um reflexo das enormes dificuldades que as autoridades locais enfrentam de costa a costa nos EUA diante “dessa ameaça à saúde pública”. No dia 4 de julho, coincidindo com a comemoração do Dia da Independência, já tiveram de lidar com 14 casos de overdose no mesmo parque. E o incidente lembra outro similar no Brooklyn, em maio, que afetou cerca de cem pessoas.

A origem da avalanche foi a droga sintética K2, ou Spice. Rick Fontana, diretor de operações de emergência dessa cidade em Connecticut, explicou que foram contabilizados até 25 casos de overdose em um período de pouco mais de três horas. Houve momentos em que tiveram de atender até seis pessoas ao mesmo tempo e chegaram a interromper a coletiva de imprensa para atender novas vítimas. “Muitos desmaiavam ao mesmo tempo”, comentou.

Os serviços de emergência começaram a receber os primeiros pedidos de socorro no início da manhã de quarta-feira. O Departamento de Saúde Pública teve de administrar cerca de 50 doses de Narcan, um tratamento para overdose, que não foi eficaz em todos os casos. Apenas duas vítimas apresentaram sintomas mostrando que suas vidas estavam em perigo.

O centro dedicado à prevenção e ao controle de doenças, assim como as autoridades locais, está realizando intensas campanhas nas redes sociais para alertar o público sobre os perigos desse tipo de droga sintética. Apontam, por exemplo, que a maconha sintética provoca efeitos diferentes e imprevisíveis, a ponto de causar ataques cardíacos e danos irreversíveis.

Desta vez não houve nenhuma morte a lamentar. Mas nem mesmo a epidemia de AIDS matou tantas pessoas nos Estados Unidos em um único ano quanto as overdoses. A maioria das mortes foi causada pelo uso de opioides. Cerca de 49.000 casos foram constatados, de acordo com os dados mais recentes do CDC. O principal fator para esse aumento de mortes é outra droga sintética, o fentanil, que matou 29.000 pessoas. É seguido pela heroína e outras drogas.

Os estados com a maior taxa de mortalidade são Virgínia Ocidental, Pensilvânia e Ohio. Em Massachusetts, Vermont, Wyoming e Montana começa a haver uma redução nas mortes por overdose, mas são uma exceção, porque no resto do país está crescendo, apesar dos esforços feitos para combater a dependência de drogas como o fentanil, 50 vezes mais forte que a heroína.

O total anual de mortes por overdose é equivalente a uma morte a cada oito minutos. O presidente Donald Trump declarou situação de “emergência de saúde pública” no ano passado. Nesse contexto, o Departamento de Justiça e a Agência Antidrogas (DEA) acabam de propor que seja aplicado às empresas farmacêuticas um limite na produção de substâncias que possam ser usadas de maneira indevida.

O objetivo dessa nova cota é reduzir o volume de medicamentos, como os analgésicos, que são vendidos ilegalmente no mercado negro ou que facilitam o vício. As estatísticas do CDC mostram algum progresso nesse sentido, já que as mortes por overdose relacionadas a medicamentos como Oxicodona ou Hidrocodona pararam de crescer, o que pode indicar que se está próximo da mortalidade máxima.

Mas, como aponta John Alston, chefe dos bombeiros de New Haven, “as pessoas se automedicam por várias razões”. “Este problema não será resolvido em breve”, adverte, enquanto indica que alguns dos intoxicados por K2 também consumiram opiáceos. Os especialistas do CDC na verdade estão preocupados com o fato de que substâncias como o fentanil sejam misturadas com drogas para aumentar seu efeito.

Na quinta-feira, Donald Trump solicitou ao procurador-geral Jeff Sessions processar as companhias farmacêuticas que produzem opiáceos. Vários estados que já agiram nesse sentido. O problema é que essas substâncias também vêm de países como a China e o México. O presidente pediu que mais controle fosse aplicado. “É como uma nova forma de guerra”, disse o presidente.

 

 

E.P.

Deixe uma resposta