Escolas militares seguem sendo exemplo de sucesso em concursos internacionais e pais fazem fila para matricular seus filhos.

  • Rafael Brunetti
  • 11/08/2018

Apesar de muitos educadores – e estudantes – torcerem o nariz para a disciplina rígida das escolas de orientação militar, o bom desempenho em avaliações nacionais e o ambiente acadêmico com foco na formação completa do estudante tornam essas escolas verdadeiras ilhas de excelência em meio à educação pública brasileira.

Para se ter uma ideia, enquanto a média geral das notas obtidas pelas escolas do país no último Índice de Desenvolvimento da Educação Brasileira (Ideb), de 2015, foi de 5,5 pontos, as escolas militares alcançaram notas acima de 6 e 7. O Colégio Militar de Curitiba, por exemplo, que integra um grupo de 13 instituições do Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB), ligado ao Exército Brasileiro, obteve a nota 7,7, ficando no topo do ranking das escolas militares.

 

As práticas didático-pedagógicas nos colégios militares subordinam-se às normas e prescrições do sistema de ensino do Exército e/ou das instituições às quais estão ligados, como a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros, mas também obedecem à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, principal referência para estabelecer os princípios da educação básica no Brasil.

Mas a realidade destas escolas é bem diferente da maior parte do sistema de ensino brasileiro, especialmente o público. Primeiramente, porque são em pequeno número diante do total de estabelecimentos de ensino. Também porque fazem uma pré-seleção de seus alunos, conforme explica Ocimar Munhoz Alavarse, professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de São Paulo (USP).

Além de pré-selecionar através de testes classificatórios, por causa do pequeno número de vagas em relação à demanda, esses colégios atraem um perfil mais exclusivo de estudante.

“São escolas que acabam fazendo uma seleção adicional, pois como adotam procedimentos pedagógicos bastante restritivos, impondo valores de disciplina e obediência, isso predispõe os alunos que querem ingressar nessas escolas. Por esse ponto de vista, elas não se parecem em nada com as escolas onde estão 99% dos estudantes”, pontua Alavarse.

Por isso mesmo, o especialista questiona se, na prática, seria possível implantar os métodos usados nas militares em outros tipos de escolas, até pela desigualdade de condições e de realidades das mais diferentes instituições de ensino – municipais, estaduais, privadas, de orientação religiosa, entre outras.

De qualquer forma, ele reconhece os méritos do ensino militar, tais como o rigoroso critério de seleção dos professores e o estímulo ao estudo como prática constante para o aluno. “É algo que gostaríamos de ver em todas as escolas”, resume. Vejamos então alguns desses pontos fortes:

1) Disciplina e estudo

Apesar de criticada por alguns especialistas em educação, a disciplina militar focada no estudo parece ter seus pontos positivos. No Colégio da Polícia Militar do Paraná em Curitiba, por exemplo, que possui 1.540 alunos em três turnos, ordem e disciplina são seguidas à risca pela comunidade escolar, desde a organização do fardamento dos alunos até as regras de comportamento e convívio dos estudantes. “Não existe processo educacional sem disciplina”, resume o comandante do CPM, major Marcelo Toniolo de Oliveira.

“Os pais quando matriculam o filho aqui têm de ter a consciência de que o aluno está submetido à disciplina militar”, afirma.

 

Essa disciplina se manifesta em uma série de pequenas regras para evitar a perda do foco no estudo. Quando o aluno é suspenso por indisciplina, por exemplo, ele cumpre a “suspensão” no próprio colégio, estudando, e não em casa, onde ficaria à toa.

Em sala de aula, o uso do celular é proibido, para não criar distração. Os aparelhos são deixados desligados em um porta-celular na parede da sala e só podem ser retirados ao final da aula ou no caso de o professor solicitá-los para uma atividade de pesquisa. Segundo Toniolo, as pessoas de sucesso são invariavelmente disciplinadas. “A disciplina traz concentração e senso de responsabilidade”, frisa.

2) Contraturno forte

Outro destaque comum às escolas militares é o contraturno escolar com muitas opções à disposição dos alunos, desde aulas de reforço em alguma disciplina que o estudante não esteja indo bem até atividades extracurriculares de esporte, lazer e cultura. No Colégio da Polícia Militar do Paraná basta dar uma caminhada pela escola para perceber que o movimento de estudantes não para. São 500 alunos por turno, mas há bem mais gente do que isso nos pátios, ginásios, salas e laboratórios. Das 6h30 às 23h sempre há o que fazer na escola, que é a mais bem avaliada do Enem entre as estaduais.

“Nosso contraturno é muito forte, e não só em conteúdo de reforço (matemática, física, história), mas também oferecemos aulas de pintura em tela, arteterapia, teatro, coro cênico, triatlo, natação, fotografia e uma série de outras atividades”, conta o major Toniolo.

Manter o aluno por mais tempo no colégio, com atividades educacionais, aumenta as chances de sucesso na sua aprendizagem, conforme explica o professor Ocimar Alavarse. E o resultado se reflete no desempenho da escola. No caso do CPM, o Ideb da escola foi de 6,4 pontos, enquanto que a média das escolas brasileiras foi de 5,5.

3) Preparo dos docentes

Outra característica dos colégios militares é a preocupação com o preparo dos seus professores. Apesar de não ser uma exigência, muitos docentes têm mestrado e doutorado e dominam perfeitamente o conteúdo que lecionam. No caso dos professores militares, muitos deles têm formação acadêmica em outras áreas do conhecimento.

 

“Esse é um traço que se busca para a educação de um modo em geral. Os países desenvolvidos se destacam justamente pela boa preparação dos seus professores”, observa Alavarse.

No CPM, por exemplo, que trabalha com docentes civis e militares, além de ter profundo conhecimento da matéria que leciona, o professor precisa se adequar às características peculiares da cultura militar. “Caso a gente perceba que ele não domine o conteúdo ou não consiga se adaptar, nós o afastamos”, explica o major Toniolo.

4) Dedicação ao estudo

Para Alavarse, o estudo contínuo é um dos pontos necessários para que os processos de aprendizagem sejam bem-sucedidos.

De acordo com o major Toniolo, o que se busca é a formação do aluno na sua integralidade, não deixando para trás nenhuma matéria ou área do conhecimento. “Uma coisa que prejudica, por exemplo, é hierarquizar as disciplinas: ‘ah, arte não precisa estudar, educação física ou filosofia não são importantes’. São importantes sim, e reprovam do mesmo jeito que as outras disciplinas”, diz.

No Colégio da Polícia Militar do Paraná, a taxa de reprovação no primeiro ano do ensino médio é alta: chega a 30%. Isso porque a escola não alivia no grau de exigência de nenhuma disciplina e as avaliações são constantes, motivando o aluno a estar sempre estudando.

“Nesse ponto, a participação da família é essencial. Nós divulgamos o calendário de provas desde o início do ano, então eles sabem quando terá a prova e podem se preparar”, explica o major. Inclusive o desempenho de cada estudante pode ser acompanhado on-line pelos pais.

5) Boa estrutura

Escolas de alto desempenho costumam ter outra característica em comum, e que é bem visível: a boa estrutura à disposição dos alunos. No Colégio da Polícia Militar do Paraná isso inclui uma piscina semiolímpica, salas de aula exclusivas para reforço escolar, ginásio, quadra de esportes coberta, laboratórios de informática, sala de musculação, sala de jogos, espaço para música, teatro, arteterapia, biblioteca, cantina, centro de apoio pedagógico e três ágoras – espécies de salas de aula ao ar livre inspiradas no modelo grego de praças.

Além disso, o asseio dos espaços chama a atenção. Afinal, são os próprios alunos os responsáveis pela limpeza das suas salas de aula. O colégio parece estar em constante reforma e melhoria de suas estruturas.

Para Alavarse, essas escolas têm uma vantagem sobre outras instituições públicas no ponto de vista financeiro e por isso conseguem manter estruturas dignas de escolas particulares ou universidades.

“Elas possuem recursos adicionais porque estão vinculadas a orçamentos militares, o que acaba um pouco com a dependência de verba dos governos que uma escola pública em geral costuma ter”, pondera.

 

6) Envolvimento da comunidade

A aproximação de uma instituição de ensino, especialmente se for pública, com a sua comunidade (pais, alunos e professores) é um dos segredos para o sucesso. De acordo com os educadores, a troca de conhecimentos e cidadania entre a escola e as famílias dos alunos é um passo adiante no caminho do bom desempenho escolar, na valorização da cidadania e no processo de socialização.

Este modelo de abrir o colégio para as famílias dos alunos faz com que elas vejam na escola algo mais do que um simples local para ensinar seus filhos. É o caso do Colégio da Polícia Militar.

Espaços como a piscina, a academia e o centro de línguas estão abertos à comunidade. Isso fortaleceu a participação dos pais, que se organizaram para criar, por exemplo, um Clube de Mães e uma Associação de Pais e Mestres forte, que inclusive ajuda a manter os custos de alguns equipamentos, como a piscina semiolímpica, e dão apoio logístico ao colégio, como na realização de viagens com a banda de música da escola ou na realização de grandes eventos festivos para a comunidade.

As escolas militares no brasil são disputadas a tapas. A escola militar Hugo de Carvalho Ramos em Goiânia. Tem até briga para conseguir vagas. As pessoas dormem do lado de fora para matricular os filhos.

Jair Bolsonaro deu exemplo do desempenho das escolas militares e que o professor perdeu a autoridade em sala de aula nas escolas públicas. O candidato do PSL frisou que mais de 70% dos professores já foram agredidos fisicamente ou moralmente dentro de sala de aula.

 

 


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