Esta não é a primeira vez que a “farra do ponto” é denunciada no Fantástico. Em 2011 foi descoberto um esquema em que médicos se ausentavam durante o horário de plantão. Para coibir a prática, o Hospital Regional instalou equipamentos de ponto eletrônico, mas a fraude persiste, como mostra a reportagem.

No dia 20 de novembro, às 7h05, o médico anestesista Francisco Manoel dos Santos Mendes chega ao CHS, bate o ponto e vai até uma lanchonete na mesma rua. No estabelecimento, ele conversa com um amigo, compra um lanche e volta para o hospital.

De acordo com o registro, próximo das 10h o médico sai novamente, só que de carro, ainda no horário de plantão. Em outro flagrante, em 7 de dezembro, Mendes chega às 7h10 e registra a digital. Menos de três horas depois vai até uma academia. As imagens mostram ele em uma esteira.

Em seguida, às 12h14, o anestesista volta ao hospital. No fim do dia, com outra roupa, ele espera o horário para bater o ponto mesmo sem ter cumprido todo o plantão de 12 horas. O Portal da Transparência informa que o salário do médico é de R$ 20.927,29 por mês referentes a uma jornada de 20 horas semanais.

Procurado por telefone, o médico disse à reportagem que “não tinha nada para falar”.

Elias Agostinho Neto, cirurgião dentista, foi flagrado realizando uma cirurgia em um hospital particular na cidade às 15h de 24 de novembro, dia e horário em que deveria estar de plantão no CHS. Ele é flagrado quando sai do centro cirúrgico para receber da enfermeira uma caixa de bombons enviado pela reportagem.

No mesmo dia que Elias deveria estar no CHS, a paciente Lúcia Elena Zorzetto diz que caiu em casa e precisava ser atendida pelo especialista.

“Eles [funcionários] não falaram o porquê [da ausência]. Deram soro, pingou devagarinho, mas não sei quem mandou eu tomar soro, não veio médico me ver”, lembra a aposentada.

Segundo a escala daquele dia, Elias tinha que trabalhar das 7h até as 19h. No entanto, só retornou ao hospital para marcar o registro de saída, mesmo sem ter cumprido a jornada de trabalho.

Os flagrantes da “farra do ponto” se repetem. Em 29 de novembro o cirurgião registra o ponto e segue para o centro de Sorocaba. No dia 1º de dezembro ele chega, bate o ponto e para em uma padaria antes de ir para o consultório particular na região central, às 9h30. De acordo com o Portal da Transparência, ele recebe R$ 4.471,85 para cumprir a jornada de 20 horas semanais.

Por meio da câmera escondida, um funcionário confirma que a prática é comum e, mais do que isso, planejada.

“É para ter dois médicos de escala, fica um só, daí um faz a primeira hora e o outro faz a segunda. Com certeza é feito um acordo entre eles”, afirma.

O dentista foi surpreendido pela equipe de reportagem no consultório e destacou que cumpre os horários estabelecidos. “Fico lá, fico a distância um pouco, fico em casa, volto, mas estou sempre lá. Estou priorizando a dor do paciente”, afirma.

Em nota, o Conselho Regional de Odontologia de São Paulo informou que casos como o descrito podem ser considerados infração ética. A pena varia de advertência até cassação do exercício da profissão.

‘Dá uma olhada e vai embora’

A reportagem da TV TEM e do G1 ainda flagrou outro médico que também participa da “farra do ponto”. Em 14 de dezembro, às 7h, o cirurgião plástico Newton Canicoba é flagrado estacionando o carro em uma vaga de táxi antes de bater o ponto e voltar para a casa onde mora, em um condomínio na Zona Sul de Sorocaba (SP).

O médico volta horas depois ao CHS, mas por pouco tempo. Segundo o registro da produção, ele vai para uma clínica particular, onde fica até as 12h e volta para a unidade para bater o ponto. Sem saber que estava sendo gravada, uma funcionária conta a rotina do médico. “Ele vem, dá uma olhada, vê se tem algum caso para resolver e vai embora.”

Conforme o Portal da Transparência, Canicoba recebe R$ 7.918,97 para cumprir uma jornada de 20 horas semanais.

A situação se repete no dia 21 de dezembro. O médico chega, fica cerca de meia hora no ambulatório e vai embora. Segundo a escala, ele tinha pacientes desde as 7h.

No último dia de flagrante, em 4 de janeiro, o médico registra a digital, deixa o CHS de moto e vai para casa. Horas depois volta para o hospital, sai novamente e vai até uma loja de ferramentas. Canicoba retorna às 12h10 para encerrar o expediente. Neste momento ele é abordado pela reportagem, mas se recusa a falar sobre o assunto.

Cerca de 30 minutos depois, o médico sai da unidade e fala sobre o flagrante. Ele alega que saiu para comprar o controle de um ar condicionado – e nega ter voltado para casa.

“Eu voltei para cá logo em seguida. Tinha esquecido meu carimbo e minha caneta, e sem o carimbo e sem a caneta eu não consigo trabalhar. Como tinha pouco paciente, aproveitei para ir comprar um controle de ar condicionado, porque o nosso estava quebrado, aí fui comprar porque o estado não fornece. Foram três dias isolados, um eu abonei, o outro provavelmente foi o de hoje, que eu fui pegar o aparelho porque não tinha paciente para atender”, defende-se.

Lavínio Nilton Camarim, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), afirma que, se comprovada infração por abandono de plantão, o médico pode ser punido.

“O Conselho Regional de Medicina é muito claro nisso. Ele é taxativo em orientar seus médicos para que, em regime de plantão, jamais abandone a não ser em situações especiais. Se realmente tiver infração médica, o médico poderá receber desde uma advertência até mesmo a suspensão ou cassação do exercício profissional.”

O secretário-adjunto da Secretaria de Saúde de São Paulo, Eduardo Ribeiro Adriano, diz que as atitudes são de exceção “e, como tal, devem ser punidas exemplarmente”. Se houver a confirmação, os profissionais deverão ser demitidos.

“Mais do que isso, eles vão ter que devolver todo o recurso que receberam e foi objeto de não contrapartida de trabalho.”

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