Otavio Frias Filho, publisher que liderou a modernização do jornal de sua família, a Folha de S. Paulo, a partir dos anos 80, e imprimiu influência marcante nas transformações do jornalismo brasileiro desde então, morreu nesta terça-feira, 21, em São Paulo, aos 61 anos. Frias Filho lutava contra um câncer de pâncreas.

Formado em direito pela USP, o jornalista assumiu o comando da direção do jornal a partir de 1984, cargo que jamais deixaria de ocupar. Inspirado na experiência norte-americana, o filho do então dono do grupo de mídia, Otavio Frias de Oliveira (1912-2007), implementou mudanças editoriais e gráficas que reformularam a Folha – do texto direto, herdeiro das agências de notícias, à conduta dos jornalistas, incluindo a obrigatoriedade de ouvir acusados em reportagens, e à criação de uma seção própria para admitir as falhas, o “Erramos”. Eram, então, os últimos momentos da ditadura militar e as mudanças visavam tentar deixar para trás o modelo de um negócio que, no Brasil, segue sendo essencialmente familiar e concentrado em poucas mãos. As metas, escritas num manual público de conduta, seria fazer um “jornalismo crítico, pluralista, apartidário”.

Por anos, Frias Filho e seus editores recrutaram egressos de universidades de jornalismo e integrantes da elite brasileira (inclusive de fora da categoria, à revelia das regras vigentes então), para mudar o jornal e levá-lo ao posto de mais vendido e influente do Brasil. Entre as inovações da Folha, está a introdução do cargo de ombudsman – ouvidor dos leitores -, que marcaria o debate e as reflexões na mídia local. Os anos 90 foram de expansão dos negócios e do leitorado – o jornal chegou a vender um milhão de cópias. A partir do anos 2000, e com os desafios impostos pela Internet, o jornal, parte de um grupo de mídia que também inclui o portal UOL, atravessou crises cíclicas, com a redução do número de jornalistas, de correspondentes no exterior e de recursos. O jornal tem, nos dados divulgados em novembro de 2017, circulação de quase 300.000 exemplares (assinaturas digitais e jornal impresso).

Nos anos recentes, o jornal vinha, sob o comando total de Otávio Frias Filho após a morte do pai, em 2007, sofrendo críticas de alguns setores e de ex-leitores por supostamente se alinhas como oposição contra os Governos do PT, a partir de 2003, algo que a direção do jornal sempre rechaçou exibindo furos de reportagem contra as administrações tucanas. Outra controvérsia de monta foi provocada por um editorial de 2009, no qual a Folha classificou de “ditabranda” o regime militar brasileiro, em comparação às ditaduras vizinhas. O texto provocou inúmeros protestos, tido com uma relativização dos crimes e violações de direitos humanos do período, ainda mais vindo de um jornal que, no passado havia apoiado, como outros veículos, a ditadura, mas cuja inflexão a partir da campanha das Diretas Já seria decisiva.

Otavio Frias Filho teve, ao longo do tempo, diferentes tipos de incursão nas páginas de jornal – de textos de opinião, a ensaios e entrevistas. Também escreveu teatro e crítica. Mantinha uma coluna mensal no caderno Ilustríssima, que circula aos domingos no jornal. Entre os livros que publicou, está Queda livre (2002), em que o jornalista faz “investigações participativas” em temas que vão da peregrinação do Caminho de Santiago de Compostela a vivências em casas de swing e sadomasoquismo.

Frias Filho deixa duas filhas, Miranda e Emilia.

E.P.

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