Antes de se tornar o jogador mais caro do mundo e o principal astro da seleção brasileira, Neymar Júnior era apenas mais um entre tantos garotos que tentavam aparecer para o futebol na Portuguesa Santista, o primo pobre do Santos. Nessa época, o que o distinguia dos outros era uma faixinha que usava sobre a testa com os dizeres “100% Jesus”. Em 2003, aos 10 anos, ele chegou à Portuguesa depois de se destacar jogando em equipes de futsal da região. Reginaldo Fino foi o responsável por ensinar a Neymar os atalhos do gramado. “A adaptação dele ao campo foi imediata”, lembra o treinador.

Fino havia acabado de deixar a base do Santos, onde trabalhou por sete anos e lançou a dupla Diego e Robinho. Jamais poderia imaginar que, no clube mais modesto da cidade, encontraria o maior craque que já passou por suas mãos. “Neymar sempre foi genial. Não ficava dando passe de lado. Ele ia pra cima dos marcadores, sem medo. Desde muito jovem, tinha uma habilidade fora do comum.” Ao mesmo tempo em que jogava na Portuguesa, o atacante também seguia brilhando nas quadras de futsal. Atento aos frutos que o talento do filho poderia render, Seu Neymar, o pai, conseguiu uma bolsa integral de estudos não só para Neymar Júnior, mas também para Rafaella, sua filha mais nova, no Liceu, um dos colégios mais tradicionais de Santos. “O pai bateu o pé e disse que Neymar só defenderia o time da escola se a irmã também recebesse a bolsa de estudos”, conta Reginaldo Fino. “Ele sempre foi inteligente ao negociar as coisas para o filho.”

Pelo time do Liceu, também treinado por Fino, Neymar foi campeão e artilheiro do principal torneio infantil da região. Na Portuguesa, formava o ataque com Léo Baptistão, que logo se destacaria no futebol espanhol. “A gente jogava contra times tradicionais da base, como o São Paulo, e ganhava fácil. Léo era o centroavante, mas se revezava com Neymar pelos lados do campo. Eles tinham um ótimo entrosamento e marcavam muitos gols”, diz o técnico.

Mas, antes de Léo partir para a Espanha, Neymar já havia chamado a atenção de Zito, ex-jogador da seleção brasileira e do Santos, onde continuava prestando serviços como olheiro. Ele estava disposto a levar o garoto para a Vila Belmiro. Confiava no faro de Reginaldo Fino. Porém, havia um problema. “A base do Santos não tinha uma categoria para meninos da idade do Neymar. Só admitiam jogadores a partir dos 13 anos”, recorda Fino. Depois de assistir a um jogo de Neymar, a convite de Zito, Marcelo Teixeira, então presidente do Santos, não só se convenceu de contratá-lo, como criou um time na base exclusivamente para recebê-lo.

Neymar Portuguesa Santista
Neymar (de faixinha vermelha na cabeça) e, à sua esquerda, Léo Baptistão, nos tempos de Portuguesa Santista.

Dois anos depois, o início da trajetória de Neymar pelo Santos esbarraria em um obstáculo que poderia ter abreviado sua história no clube. Robinho, que ganhou dois títulos brasileiros com o time santista, foi vendido para o Real Madrid. Seu empresário, Wagner Ribeiro, que naquele momento já agenciava a carreira de Neymar, chegou a Madri propagando aos quatro ventos que, em breve, levaria um “novo Robinho” para os merengues. A promessa se cumpriu. Em março de 2006, Ribeiro viaja com Neymar para a capital espanhola e o apresenta às categorias de base do Real Madrid. Hospedado na casa de Robinho, o garoto franzino treinou por quase três semanas com o time sub-15 madridista. Tirou fotos com os ídolos Ronaldo e Roberto Carlos e chegou a acompanhar dois jogos dos galácticos da tribuna de honra no Santiago Bernabéu.

Segundo Wagner Ribeiro, o presidente Florentino Pérez iria oferecer moradia e bons empregos aos pais de Neymar em Madri, já que a FIFA não permite transferências internacionais de jogadores com menos de 18 anos. Além disso, estava disposto a pagar cerca de 50.000 euros ao pai e ao empresário para fechar o negócio. No entanto, Pérez renunciou à presidência pouco antes da chegada de Neymar a Madri. Apesar do interesse de Fernando Martín, que assumiu o cargo em seu lugar, a nova diretoria preferiu não gastar para contratar um jogador tão jovem. O encanto de Neymar pelo clube se transformou em frustração. Mas foi providencial para fechar seu primeiro grande contrato no futebol.

Receosa de perder o futuro craque para o Real Madrid, a diretoria do Santos, imaginando que o contrato com o clube espanhol estava prestes a ser fechado, apresentou uma proposta milionária ao jogador: 500.000 euros pela assinatura do contrato, um apartamento em Santos e 4.000 euros de salário. Aos 14 anos, Neymar já era mais bem pago que muitos jogadores do time principal. “Foi uma grande jogada de marketing”, diz Fino, se referindo à ida de Neymar para Madri. “O pai e o empresário conseguiram o que queriam, que era valorizar o garoto.”

O filho protegido

Neymar Júnior nasceu em Mogi das Cruzes, uma cidade de 400.000 habitantes que fica entre Santos e São Paulo. Pelo acordo feito com a mãe, deveria se chamar Matheus, mas, de última hora, o pai decidiu batizá-lo com seu próprio nome. Assim como o filho, o pai foi um atacante que jogava pelas pontas, porém bem menos talentoso. Enquanto a família se acostumava com a ideia de chamar o mais novo integrante de “Juninho”, Seu Neymar defendia o União Mogi, time que disputava a terceira divisão estadual. As seguidas lesões que sofreu, sobretudo após um grave acidente de carro, quando Juninho tinha apenas quatro meses, selaram sua discreta jornada pelo futebol profissional.

A família sobreviveu. Mas Neymar pai fraturou a bacia e ficou mais de um ano sem atuar. Encerrou a carreira algum tempo depois, aos 32 anos, e mudou-se para uma casa simples em São Vicente, vizinha de Santos. Foi lá que, ao assistir uma pelada do patriarca na praia, Roberto Antônio dos Santos, o Betinho, se distraiu com a agilidade de um garoto ao subir e descer as arquibancadas. Era Neymar Júnior, então com seis anos. Betinho não teve dúvidas em convidá-lo para jogar futsal em sua escolinha. “Nem precisei ver o menino com a bola nos pés. Só de correr, percebi que ele tinha ginga no corpo. Era uma joia a ser lapidada”, diz Betinho, que, tal qual Reginaldo Fino, também trabalhou na base do Santos e lançou Robinho no futsal.

Neymar adolescente
Neymar, já adolescente, e Reginaldo Fino. ARQUIVO PESSOAL

Por ter sido jogador e encerrado a carreira devido às lesões, o pai se portou desde o início como um guru de Neymar. Orientava para que o filho evitasse o choque com os zagueiros e se jogasse ao primeiro contato dos adversários, o que acabou lhe rendendo o incômodo rótulo de cai-cai. “De certa forma, essa orientação do pai, apesar de algumas jogadas mais cenográficas, foi boa para o Neymar. Ele apanha bastante, mas, tirando a lesão no PSG e aquela na Copa de 2014, ele nunca se machucou gravemente”, afirma Fino, comparando-o com outro jogador de sua época. Eduardo Ribeiro, conhecido como Dudu Ratinho, também jogava na Portuguesa Santista e, para alguns, era mais promissor que Neymar e Léo Baptistão. Canhoto e habilidoso, chegou a integrar a base do Santos. No entanto, uma grave lesão no joelho minou sua trajetória. “Tive o azar de me machucar. Mas fico feliz de ver que um amigo virou estrela do futebol”, diz Dudu, que segue morando em Santos.

Após Neymar despontar como profissional, Reginaldo Fino o reencontrou apenas uma vez, quando inaugurou uma escolinha do Santos em Ourinhos, interior de São Paulo. A franquia levava o escudo do clube santista e o nome de Neymar, um presente do pai ao treinador que o revelou. Porém, depois que o craque foi negociado com o Barcelona, o time da Vila Belmiro se recusou a manter a concessão gratuita da escolinha a Fino, que se viu obrigado a buscar outros caminhos para continuar no futebol. Hoje ele coordena as categorias de base do Linense, time da segunda divisão paulista, e alimenta a esperança de revelar “novos Neymares”. “Me sinto privilegiado por ter trabalhado com um craque como ele. É muito difícil que apareça outro jogador com o talento do Neymar. Mas quem sabe o raio não cai outra vez?”

E.P.

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