“América do Sul para os sul-americanos!”, Hugo Chávez bradou durante um comício em Buenos Aires em 2007. Não deixa de ser irônico que, mais de uma década depois, as políticas implementadas pelo ex-presidente venezuelano e por seu sucessor alcançaram o exato oposto. A Venezuela está passando por uma catástrofe humanitária e um êxodo sem precedentes, e os três atores externos mais influentes na Venezuela hoje — China, Estados Unidos e Rússia — não são da América do Sul. Os líderes da região foram reduzidos a meros espectadores, apesar de serem, de longe, os mais afetados, recebendo um número crescente de refugiados venezuelanos.

A região tem apenas a si mesma para culpar. Por mais de uma década, a auto-destruição da Venezuela foi previsível e evitável. No entanto, atraídos por importantes ganhos econômicos de curto prazo, tanto o Brasil quanto a Argentina desempenharam o papel de facilitadores, protegendo a Venezuela da pressão diplomática externa e acalmando diplomatas estrangeiros. Hoje, com o Brasil e a Argentina enfrentando suas próprias crises domésticas, a janela de oportunidade para convencer a Venezuela a adotar uma estratégia econômica e política mais sensata está fechada. Há um consenso global de que a região é incapaz de ajudar a Venezuela a sair do fundo do poço. Era de se esperar que grandes potências externas preenchessem esse vácuo de poder. O debate público no Brasil está preso em um embate entre vozes a favor e contra Nicolás Maduro, misturando a polarização venezuelana com a política doméstica. Boa parte da esquerda brasileira defende o governo venezuelano, enquanto a direita o critica. Esse automatismo, porém, nos faz negligenciar uma tendência muito mais importante. A crise na Venezuela causou uma transformação geopolítica na região, reduzindo a capacidade do continente de moldar seu próprio destino e abrindo as portas para uma maior interferência externa. As consequências já são visíveis. No passado, as crises regionais eram, em grande parte, debatidas e resolvidas durante as reuniões do Mercosul ou da UNASUL. Hoje, as melhores oportunidades para líderes regionais influenciarem a situação em Caracas já não se apresentam durante cúpulas regionais, mas em reuniões bilaterais em Pequim, Moscou e Washington. As principais ideias ou iniciativas de como lidar com a Venezuela não virão da América do Sul e, portanto, não necessariamente estarão alinhadas com os interesses da região. Tornou-se muito mais complexo entender ou antecipar desdobramentos políticos no país vizinho, porque dependem de dinâmicas internas nos EUA, China e Rússia, mas também das relações entre essas três potências. Uma das principais motivações da presença russa em Caracas é enviar uma mensagem para Washington: se os EUA mexerem no quintal russo (por exemplo, na Ucrânia), Moscou fortalecerá sua atuação na vizinhança dos Estados Unidos.

É improvável que essa situação mude no médio ou no longo prazo, independentemente de quanto tempo Maduro se mantenha no Palácio Miraflores. O cenário mais provável é que o atual presidente ou alguém que promova políticas similares permaneça no comando por anos. Uma tentativa de golpe com a participação de elementos de todos os quatro ramos das Forças Armadas da Venezuela, com codinome de ‘Operação Constituição’, foi frustrada pelos aliados de Maduro em maio – um sinal de que o presidente está relativamente firme no controle.

A China está preocupada com a capacidade de a Venezuela pagar sua dívida, mas ela continua comprometida com Maduro. Na semana passada, o ministro das Finanças da Venezuela anunciou que a Banco Chinês de Desenvolvimento investirá mais de US$ 250 milhões para impulsionar a produção de petróleo da Venezuela na região do Orinoco. Nos últimos anos, Vladimir Putin, por meio da petrolífera russa Rosneft, deu sobrevida a Maduro e à PDVSA, estatal venezuelana de petróleo, com bilhões de dólares em empréstimos, garantidos por remessas de petróleo e gás. Apesar dos ocasionais comentários de Trump sobre possíveis medidas mais radicais contra a Venezuela, um embargo de petróleo parece improvável. De qualquer forma, o resultado será um êxodo contínuo de refugiados para o resto da América do Sul.

A manutenção do status quo também parece provável porque os atores-chave não têm forte incentivo para mudar de rumo. As recentes mudanças no gabinete de Maduro – Delcy Rodríguez, ex-ministra das Relações Exteriores, agora é vice-presidente, e apenas poucos chavistas da velha guarda sobreviveram – são resultado de dinâmicas internas de poder, mas terão impacto limitado na política econômica. As Forças Armadas controlam a distribuição de alimentos e remédios, e obtêm enormes benefícios no mercado negro graças à escassez e às distorções impostas pelo governo. Nesse quadro, cada venezuelano a mais que decide emigrar reduz a probabilidade de um movimento eficaz de oposição.

Mesmo no improvável cenário de um rápido colapso do regime de Maduro e da organização de eleições livres e justas, a América do Sul terá que se acostumar com poderosos atores extrarregionais operando em Caracas. Qualquer futuro governo venezuelano provavelmente precisará assinar acordos de longo prazo com o FMI e bancos chineses para iniciar o extenso processo de reconstrução. Agências de desenvolvimento do mundo inteiro viriam para Caracas, dada a enorme falta de burocratas minimamente treinados do novo governo. Com toda uma geração de venezuelanos dizimada pela falta de escolaridade, desnutrição, doenças não tratadas e muitos emigrantes que nunca voltarão, a recuperação levará mais do que uma década.

Futuros historiadores interpretarão essa crise como um tremendo revés na longa busca da América do Sul pelo controle das dinâmicas políticas regionais e pela redução da influência exterior – um dos principais objetivos da política externa brasileira. Em vez de continuar um debate pouco relevante sobre os prós e os contras do chavismo, o Brasil precisa adaptar sua estratégia regional a algo sem precedentes: a presença geopolítica permanente de múltiplos grandes atores externos em sua vizinhança.

E.P.

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