Desde maio, o registro central emitiu pelo menos 790 atestados de óbito, de acordo com dados da Rede Síria para os Direitos Humanos (RSDH). Esta ONG estima em 82.000 as pessoas desaparecidas nas celas do governo durante um conflito que entrou no oitavo ano e já contabiliza meio milhão de mortos – um terço deles, civis. Após cinco anos de angustiante espera, as famílias clamam por justiça pelos mortos e liberdade para aqueles que permanecem atrás das grades.

Yahia Charbahi é um dos jovens cuja família recebeu o temido atestado de óbito. Nem a causa nem o local da morte são especificados. Seu nome já sobressaia entre o pequeno grupo de ativistas na Síria quando Bashar al-Assad sucedeu a seu pai como presidente em 2000. “Em 2006 já havia cumprido três anos atrás das grades por ‘ataques à ordem cívica’ e foi expulso da Universidade de Damasco”, diz seu primo Eiad Charbahi em uma conversa via WhatsApp dos EUA.


Atestado do registro civil de Damasco em que se especifica a data da morte do jovem ativista Yahia Charbahi em 15 de janeiro de 2013ampliar foto
Atestado do registro civil de Damasco em que se especifica a data da morte do jovem ativista Yahia Charbahi em 15 de janeiro de 2013

Com a onda de revoltas populares que percorreram a região em 2011 e abalaram a Síria em março, Yahia foi novamente às ruas com o círculo de amigos que se tornariam proeminentes vozes dos protestos. Para evitar que as manifestações pacíficas terminassem em violência, ficaram conhecidos por distribuir flores e garrafas de água entre os soldados. Em 6 de setembro de 2011, Guiath Matar, Yahia e Maan Charbaji foram os primeiros a desaparecer a bordo de vans, presos por agentes à paisana. “Neste mês, os mukhabarat devolveram o corpo de Ghiath à sua família, degolado, embora o atestado médico dissesse ‘morto por problema cardíaco’. Tinha 26 anos”, diz Charbahi.

Em maio passado e sem aviso prévio, o regime sírio começou a inscrever no registro civil central as certidões de óbito dos jovens desaparecidos no abismo no qual se transformou o inextricável sistema carcerário contra o qual lutam em vão suas famílias. Para alguns especialistas, trata-se de um reconhecimento implícito do Governo de Bashar al-Assad do desaparecimento de milhares de jovens após a revolução. ONGs como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch responsabilizam Damasco por 13.000 mortes sob sua custódia. E tudo isso em um momento em que suas tropas prometem vencer a guerra e recuperar o controle do país.

Na opinião de Charbahi, “vão matar todos os prisioneiros porque o regime não quer testemunhas incômodas que manchem sua vitória”. Para outros, a emissão repentina de certidões de óbito está relacionada às demandas da oposição nas negociações de Genebra e Astana, destinadas a ajudar as mulheres e filhos dos desaparecidos na Síria. Para estes, realizar todo o processo burocrático, como um registro de propriedade ou receber uma herança, esbarra em um beco sem saída enquanto não disponham de um documento oficial que ateste a morte de seus parentes. Uma folha com uma data é tudo o que conseguiram. Nenhum vestígio de seus corpos ou fotos que corroborem sua morte.

Sem corpos para enterrar

Para os Jolani, a prova definitiva chegou em 2014, contida no relatório César; nome do fotógrafo militar que conseguiu fugir da Síria com 55.000 imagens de 11.000 prisioneiros supostamente executados em presídios do governo. Este relatório representa a evidência mais sólida no caso aberto por parentes para julgar executores na Síria. Amina Jolani é uma delas. Perdeu três dos seus quatro irmãos em prisões sírias. Mohamed, de 35 anos, Abdulsatar, de 30, Bilal, de 25, e Mayed, de 20, foram sucessivamente capturados e presos.

Imagem em que aparece Bilal Jolani, de 20 anos, depois e antes de ser preso durante oito meses em 2014 em presídios pró-governamentais
Imagem em que aparece Bilal Jolani, de 20 anos, depois e antes de ser preso durante oito meses em 2014 em presídios pró-governamentais

“Centenas de milhares de libras sírias em subornos e oito meses depois”, Bilal foi o único que conseguiu sobreviver, em um estado lastimável de saúde, ao maquinário da prisão. “Nosso irmão Mohamed morreu em seu colo na cela, depois de voltar de uma brutal sessão de tortura”, soluça Amina, entrevistada por telefone da Grã-Bretanha. A foto de um esquálido Mohamed com um número escrito com caneta na testa foi divulgada com o relatório César. Os Jolani acabaram de receber as certidões de óbito de seus outros dois irmãos. Data da morte: 15 de janeiro de 2015, às 22h.

Esses testemunhos coincidem com os de Omar Shogre, um dos sobreviventes do inferno em vida que superou contra todas as probabilidades para poder contar os três anos e meio que passou em diferentes 11 centros de detenção. “Lá, a morte é a melhor coisa que pode acontecer com você”, resume em uma entrevista por telefone de Estocolmo. Durante um período, o jovem ficou encarregado de transportar os corpos dos prisioneiros que não resistiram à tortura, às doenças e à fome no quartel 215, para depois depositá-los em vans. “Toda manhã retirávamos entre 30 e 40 corpos”, lembra. “Tínhamos que escrever um número com um marcador em suas testas, que estava associado a outro em uma lista que os carcereiros tinham com os nomes”, acrescenta.

A solidariedade entre aqueles que compartilharam o inferno na terra é inesgotável. Shogre memorizou 120 nomes e endereços de colegas de cela durante seus três anos e meio de prisão. Alguns deles estrangeiros. A primeira coisa que fez quando em liberdade, com 35 quilos e tuberculose aguda, foi localizar suas famílias. “Já faz três anos e ainda estou recebendo mensagens no Facebook de familiares desesperados que me enviam fotos, com a esperança de que eu possa localizar seus parentes em uma das prisões em que estive”, lamenta Shogre.

 

Dez famílias de desaparecidos se unem para exigir justiça e liberdade

N.S., Beirut

Com o grito de “justiça”, 10 mulheres se uniram na organização Famílias pela Liberdade para exigir tribunais que julguem os executores e também a libertação imediata dos prisioneiros que permanecem vivos. A expressão dessas mulheres abatidas, mas determinadas, com fotos de seus filhos ou maridos cuidadosamente emolduradas, é a mesma há décadas, protagonizada pelas famílias dos mais de 600 libaneses desaparecidos. Desapareceram nas emboscadas dos serviços de inteligência sírios nos anos oitenta e noventa, quando patrulhavam o Líbano e foram depois transferidos para as prisões na Síria.

A advogada e ativista Nura Ghazi é uma das cofundadoras. “O artigo 39 da legislação civil estipula que a causa da morte não deve figurar no registro civil no caso de uma sentença de morte”, explica por telefone de Beirute a advogada, cujo marido e renomado defensor dos direitos humanos, Basel Khatib Safadi, foi condenado à morte no ano passado.

A Rede Síria para os Direitos Humanos calcula em “82.000 os desaparecidos à força nas masmorras do regime de Bashar el-Assad”. Por sua vez, o diretor do registro civil central, Ahmed Rahal, estimou esta semana em 68.000 as mortes registradas no ano passado, sem especificar as causas. Em 2018, o número de óbitos chega a 32.000, segundo declarou ao jornal pró-governo Al Watan.

“Que justiça?”, exclama Eiad Charbahi, agora nos EUA, que fez um inventário familiar: “Dos sete irmãos que moravam no mesmo prédio em Daraya, dois morreram em prisões e cinco fugiram para a Turquia, Alemanha, Arábia Saudita, Holanda e eu, para os EUA. Um primo ainda está desaparecido e outros dois também morreram na prisão.”

E.P.

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