O que haveria em comum entre alguns eventos históricos aparentemente tão distintos como a revolução russa e a ascensão do nazismo? Será que tais eventos teriam em comum apenas sua nefasta magnitude histórica?

Para que possamos responder a essa interrogação, e entender o que ocorre hoje em termos de geopolítica, penso que é importante irmos à raiz desses eventos. É preciso, creio, compreender as motivações que não aparecem nas narrativas oferecidas pelo establishement. Dito de outra forma, precisamos “rastrear o dinheiro”, identificar os “patrocinadores” desses eventos para que possamos, então, especular sobre suas obscuras motivações.

Antes disso quero apenas citar meu texto anterior publicado aqui no JCO, no qual adiantei um pouco o tema:

Assim, vejamos primeiramente aquela que é considerada a maior revolução socialista do século XX, a revolução russa (1917). Quanto a ela, existe uma desinformação comum tanto para a esquerda quanto para a direita, qual seja, a de que ela foi uma ação liderada pelas massas populares contra o regime monárquico russo. Todavia, os fatos refutam essa ideia e nos mostram a realidade.

E qual a realidade sobre a revolução russa?

Em primeiro lugar, cabe enfatizar que ela foi responsável, sim, por dezenas de milhões de mortes. No entanto, essas mortes não foram causadas por uma “ação das massas populares”, mas, sim, pelo planejamento de seus financiadores na Alemanha, na Grã-Bretanha e nos USA.

Mas, e aqui alguém poderia perguntar: como isso começou? Onde jaz a raiz desse movimento que culminou na revolução de 1917?

Bom, isso começou ainda na guerra russo-japonesa (1904-1905), em que ambos os impérios disputaram territórios da China e da Manchúria. À época, um dos nomes mais influentes de Wall Street, Jacob Henry Schiff (1847-1920), presidente do mais importante banco multinacional de investimentos, Kuhn, Loeb and Company (1867-1977), com sede em Nova York, garantiu fundos para o governo japonês que, com os recursos assegurados por Schiff, venceu a guerra contra os russos.

Shiff inclusive recebeu, em 1905, a condecoração da Ordem do Tesouro da Felicidade Sagrada, em virtude de seu apoio essencial à vitória japonesa. Fez parte de seus esforços inclusive buscar o apoio da família Rothschild (sim, a mesma família que, como expus no texto anterior, fomentou o surgimento e alastramento da ordem dos Illuminati’ na Europa no século XVIII, uma ordem – inicialmente denominada ‘Bund der Perfektibilisten’, “União dos perfectibilistas”, e posteriormente ‘Ordem dos Illuminati’, fundada em maio de 1776 – liderada por Adam Weishaupt [1748-1830], o qual fomentou o desenvolvimento de ideias socialistas, o fim das religiões e das soberanias nacionais, bem como estimulou a revolução francesa).

Não apenas isso, desde o início a ordem teve uma forte influência na condução da “mão invisível” do mercado, “sistematicamente controlando e expandindo os negócios e as transações financeiras”, “virtualmente exercendo uma dominação mundial” (conforme lemos em “The conspiracy of the invisible hand: anonymous market mechanisms and dark powers”, 2008, disponível no ‘Zurich Open Repository and Archive’ da Universidade de Zurich).

Não obstante, voltando ao século XX, segundo artigo de Gary Dean (“Financing a Foreign War: Jacob H. Schiff and Japan”, 1972), em abril de 1904 Schiff escreveu ao Lorde Rothschild pedindo que os “Rothschild e outros banqueiros judeus na Europa ativamente tentassem impedir a Rússia de conseguir empréstimos para a guerra”.

A estratégia foi muito bem sucedida e a família Rothschild deu um passo importante em suas pretensões econômicas e geopolíticas, concernentes especialmente à Rússia e ao avanço de algumas ideias já presentes no século XVIII, especialmente aquelas advogadas por Weishaupt e sua ordem, ideias que hoje seriam consideradas “socialistas”. Assim, por detrás dessas ideias havia algo ainda mais tenebroso, a saber, o propósito de instituir uma ‘nova ordem mundial’, cujas características já encontramos na ordem fundada em 1776 por Weishaupt, “coincidentemente” a pedido da família Rothschild.

Mas que tem isso a ver com a revolução russa? Pois bem. O ponto é que nesse período da guerra russo-japonesa muitos soldados russos foram feitos prisioneiros. Além disso, fora da Rússia havia muitas “forças” hostis ao Tsar Nikolái Alieksándrovich Románov.

Essas “forças” investiram em propaganda marxista contra o regime do monarca russo (inclusive entre os prisioneiros russos da guerra russo-japonesa). Muitos revolucionários russos foram, inclusive, treinados nos USA. A partir desse ponto começou, na Rússia, uma campanha de doutrinação contra o regime de Románov. E assim cresceu a insatisfação contra o regime russo, a qual culminaria na revolução de 1917.

Mas muita coisa aconteceu antes que ela fosse consumada. Por exemplo, um dos mais conhecidos revolucionários russos, Leon Trotsky (1879-1940), esteve por um tempo em Nova York, sendo sua estadia custeada por um rico anfitrião (alguns sugerem que foi Jacob Henry Schiff). O fato é que por meses Trotsky permaneceu nos USA, onde ele escrevia textos socialistas para serem publicados na Rússia. Ele mesmo comenta em sua autobiografia, “Minha vida” (1930), especialmente no capítulo 22 (intitulado ‘New York’), que uma limusine com chofer ficava ao seu dispor, cortesia de um tal “Doctor M”.

Vejam: um revolucionário socialista anticapitalista desfrutando dos prazeres de uma sociedade capitalista. E isso às expensas de um …. capitalista. Bom, mas hoje isso não nos causa surpresa. Quanto mais no topo da hierarquia, tanto mais um revolucionário socialista desfruta das benesses do capitalismo e da luxúria. Isso faz parte de suas biografias.

Mas logo após a revolução, ainda em 1917, Jacob Henry Schiff descreveu a revolução russa como “aquilo pelo qual esperávamos e pelo qual nos esforçamos ao longo desses anos” (The New York Times, 24 de março de 1917).

Décadas depois (em 1949) o neto de Jacob Henry Schiff, John, disse que seu avô teria “dado” 20 milhões de dólares para a vitória da revolução bolchevique na Rússia em 1917.

Obviamente, não se tratava de uma “doação”, mas de um “investimento” visando negócios lucrativos que ocorreram desde então com magnatas de Wall Street. Aliás, não apenas Trotsky tinha fortes ligações com Wall Street, mas ele teve um apoio político fundamental: “O presidente Woodrow Wilson foi a fada madrinha que providenciou um passaporte para que Trotsky pudesse retornar à Rússia e ‘levar adiante’ a revolução” (Antony Sutton em “Wall Street and the Bolshevik Revolution”, 1974).

Mas o suporte de Wall Street à revolução socialista fica claro em um cartoon de valor histórico incalculável, publicado em 1911 no célebre jornal fundado por Joseph Pulitzer (o prêmio ‘Pulitzer’ é em sua homenagem), ‘St. Louis Dispatch’, no qual Karl Marx, com um livro intitulado “socialismo” sob o braço, é cercado por vários “admiradores”, dentre os quais se destacam John D. Rockefeller, J.P. Morgan, John D. Ryan (do National City Bank), George W. Perkins, Andrew Carnegie e Theodore Roosevelt (líder do partido Democrata e presidente dos USA de 1933 a 1945). O cartoon foi desenhado por Robert Minor, o qual era patrocinado por Wall Street e havia sido preso na Rússia por “atividades revolucionárias” contra o Tsar.

Como dizem, “uma imagem vale mais do que mil palavras”. E o cartoon sintetiza muito daquilo que hoje lemos em livros bem documentados, como o citado acima (do Professor Antony Sutton) e “The Creature from Jekyll Island” (1994), de G. Edward Griffin.

Por mais paradoxal que possa parecer, os sujeitos mais ricos do planeta, pelo menos desde o século XVIII, nunca foram tão “capitalistas” assim. Isso fica claro em 1883 quando, ao perceberem que a competição lhes era prejudicial, os Rockefeller e os Rothschild (que eram então os barões do petróleo e dos bancos, sendo, ainda, as famílias mais ricas do mundo) decidiram evitar a competição. Foi nesse contexto que John D. Rockefeller (que aparece no citado cartoon reverenciando Karl Marx) teria dito: “a competição é um pecado”. Ou seja, a competição, núcleo de uma economia de mercado, da liberdade e da prosperidade mesmas, sempre foi condenada pela elite financeira mundial.

Assim, a mesma elite que contribuiu para a revolução (‘socialista’) bolchevique na Rússia posteriormente investiu pesadamente na eleição de Theodore Roosevelt (que também consta no cartoon acima citado, praticamente se curvando diante de Karl Marx), o qual presidiu os USA de 1933 a 1945 (e levou a efeito o ‘socialismo’ em seu plano “New Deal”).

Mas nesse período essa mesma elite subsidiou outro evento de impacto mundial: o movimento nazista na Alemanha (nacional ‘socialismo’). Isso está bem documentado em outro livro do Professor Antony Sutton, “Wall Street and the rise of Hitler” (1976). Nesse livro, baseado em documentos e diversos testemunhos, o Professor Sutton esclarece o papel que diversos grupos e indivíduos tiveram na ascensão de Hitler.

Nesse grupo temos, não poderia faltar, a família Rockefeller, bem como J.P. Morgan, T.W. Lamont (banqueiro ligado a J.P. Morgan), General Electric Company (fundada por Thomas Edison), Standard Oil (família Rockefeller), National City Bank, Chase and Manhattan Banks, Kuhn, Loeb and Company, General Motors, Ford Company, Prescott Bush (à época a serviço do Brown Brothers Harriman – base nos USA do industrial Fritz Thyssen, o qual financiou Hitler), etc. Alguns deles, aliás, foram também fomentadores da revolução russa. Todos notórios membros da elite financeira de Wall Street.

Portanto, o que temos é uma elite financeira apoiando, vejam, projetos de jaez socialista e totalitários, isto é, totalmente contrários à ideia de liberdade (inclusive econômica).

Mas qual a razão para que os indivíduos mais ricos do mundo patrocinem movimentos socialistas? Será que se trata de uma preocupação com a justiça social? Realmente, duvido que esse seja o caso.

Em primeiro lugar, se esse fosse o caso eles não investiriam no socialismo, mas em uma economia de mercado, a qual foi responsável pela prosperidade econômica dos últimos séculos. Em segundo lugar, eles viram tanto na revolução bolchevique quanto na ascensão do nazismo uma grande oportunidade de aumentarem sua incalculável riqueza, ainda que ao custo de milhões de vidas (e da liberdade mesma).

No entanto, creio que possa existir, além do lucro exacerbado, algo mais pernicioso por detrás de suas intenções, e esse “algo” parece remontar, pelo menos, ao século XVIII. Sim, estou falando da ideia de uma ‘nova ordem mundial’.

Em seus estudos o Professor Sutton foca especialmente no fato de que tanto a revolução bolchevique quanto a 2ª. guerra mundial foram incalculavelmente rentáveis para seus apoiadores de Wall Street. Nesse sentido, ela foi meticulosamente articulada pela elite econômica, não se tratando de algo que simplesmente ocorreu de forma espontânea. Não obstante, a questão é: se tratava unicamente de obter lucro ou haveria algo mais … algo que segue sendo um projeto dessa mesma elite pelos menos desde o século XVIII?

Os acontecimentos recentes parecem não deixar dúvidas quanto a isso: estamos cada vez mais adentrando em uma espécie de “admirável mundo novo”, uma distopia conhecida como ‘nova ordem mundial’, na qual vige a falta de liberdade e um governo cada vez mais “globalizado”, centralizado precisamente na “elite financeira global”, a qual tem resolutamente combatido, lamentavelmente com sucesso, as soberanias nacionais, a liberdade e os valores morais assentados pela tradição judaico cristã.

Carlos Adriano Ferraz. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito. Também é membro do movimento Docentes pela Liberdade (DPL), sendo atualmente Diretor do DPL/RS).

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