Prezado Dr. Rey.

Assisti o vídeo em que você lamenta por não ter sido recebido pelo Presidente eleito Jair Bolsonaro, quando por ocasião da sua ida para pedir ao Presidente que o nomeasse Ministro da Saúde. O pior de tudo isso foi achar que assim “se humilhou” em ir até o referido político para fazer o tal pedido.

Deixe-me esclarecer algumas coisas.

Eu não vou fazer qualquer menção à sua capacidade profissional, primeiro porque não conheço e segundo porque na minha modesta opinião, quem amealhou uma fortuna de US$ 15 milhões fazendo cirurgias realmente não pode ser um mau profissional.

Quem seria eu ou quem é qualquer um para julgá-lo nesse aspecto? Qualquer depreciação à sua pessoa seria injusta, desproporcional e cometer a injúria de negar os méritos de alguém que teve uma infância pobre e ascendeu pelo esforço. Não serei eu a fazê-lo.

O problema, Dr. Rey, não é de formação e nem de competência, e sim de atitude.

É a embriaguez da fama, que muitas vezes entorpece e faz com que as pessoas se deixem cair nas armadilhas da soberba e do estrelismo. Ainda que tenham sido louváveis suas intenções, ninguém vai a um Presidente Eleito se oferecer para o cargo de Ministro. As escolhas são feitas de acordo com os critérios de quem foi eleito, e não de acordo com a vontade pessoal de cada um.

O senhor enche a boca para falar de formação em Harvard e que percorreu todo o mundo e blá blá blá, como se isso o colocasse num patamar acima de qualquer outro médico, e como se sua formação fosse suficiente para qualificá-lo. Não é. Há mais que isso.

Humilhação? Talvez tenha sido realmente motivo de vergonha alheia a sua ida espontânea pedir um emprego de MINISTRO!

Olha a diferença, Dr. Rey! O falecido Doutor Ivo Pitanguy foi um mestre da cirurgia plástica conhecido e reconhecido pelo seu trabalho no mundo inteiro (e não por reality show). Em seu “humilde” currículo consta:

*Patrono da Academia Brasileira de Cirurgia Plástica;

*Membro titular da Academia Nacional de Medicina;

*Membro da Academia Brasileira de Letras;

*Patrono da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica; *Membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica;

*Membro do Conselho Deliberativo do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (Comissão Nacional da Unesco) e de várias associações médicas internacionais;

*Philosophiae Doctor Honoris Causa, conferido pela Universidade de Tel Aviv, Israel, (1986);

*Cidadão Honorário do Rio de Janeiro (1976);

*Chancellier des Universités de Paris (1988);

*Membro Honorário da Società Medica di Bologna, vinculada à Universidade de Bologna (1988);

*Prêmio Alfred Jurzykowski da Academia Nacional de Medicina (1987);

*Prêmio para Melhor Livro Científico do Ano (1981) na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, pela sua obra Aesthetic Surgery of the Head and Body; Humanitarian Award, Chicago, Estados Unidos (1984);

*Prêmio Cultura per la Pace, concedido por S.S. o Papa João Paulo II e pela associação Insieme per la Pace, Itália (1989)

*Doutor Honoris Causa pela Unirio (2016).

Como se não bastassem os seus méritos, foi o autor de mais de 900 artigos publicados pelas revistas mais importantes do mundo em cirurgia plástica e escreveu os mais importantes livros, que nortearam cirurgiões do mundo todo, tendo conferido mais de 1500 palestras, que o consagraram como uma espécie de “deus da Cirurgia Plástica”. Era uma referência e uma unanimidade no assunto, tanto que qualquer cirurgião desejava a honra de participar de pelo menos UMA das seus milhares de intervenções.

Com esse currículo, Ivo Pitanguy nunca se prestou ao papel de ir pedir emprego de Ministro em governo algum. Sua colaboração ao Brasil foi e continua sendo inestimável até mesmo após dois anos da sua morte, e vai ser ainda por muitas décadas, pois tornou o Brasil uma referência mundial em cirurgia plástica, elevando o nome dos médicos brasileiros ao mais alto patamar. Até mesmo você pode ter se beneficiado disso indiretamente.

Ivo Pitanguy era um homem simples, apesar de rico. Não gostava de mídia, não era polêmico, não gostava de holofotes, não fazia gênero, não era melodramático e nem fazia autopropaganda. As pessoas é que o reconheciam pelo seu fantástico trabalho, e sua história falava por ele… no mundo inteiro. Conquistou o respeito de todos, sobretudo das mais altas autoridades, pelo seu estilo sóbrio. Era um sábio e detestava extravagâncias. Compreende o que é isso? Acho que não, mas vamos continuar.

Também não ficava por aí arrotando quanto tinha ou que deixava de ter, e te garanto, era incalculável. Essa fortuna da qual você se gaba, Dr. Rey, não seria suficiente nem para comprar a ilha do Pitanguy em Angra dos Reis, que anos atrás foi avaliada em 12 milhões de euros. Mesmo sendo um homem rico e que podia transitar nas mais altas esferas do planeta, olha que coisa: Incontáveis foram as cirurgias que ele fez em pessoas pobres e sem qualquer recurso, e sem fazer propaganda disso! Muita gente nem sabe. Engraçado, não é?

Você disse que se não pudesse ajudar o Brasil, que iria se alistar no Exército americano e servir no front, não foi isso mesmo? Então… Quer mesmo fazer um favor ao Brasil? Aliste-se na US ARMY e vá para o front! Vá levar o nome do Brasil até aqueles que precisam, mas deixe os holofotes em casa.

Faça-se ser respeitado por um conjunto de grandes obras, e quem sabe um dia o convite ser-lhe-á feito. Não pela intensidade das luzes que você joga sobre si

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