Primavera de 1974. O filme Chinatown, de Roman Polanski, está prestes a estrear nos Estados Unidos. A revista Time decide fazer uma reportagem de capa sobre seu protagonista, Jack Nicholson (Nova Jersey, 1937). Nicholson havia se destacado em Sem Destino (1969) e foi indicado ao Oscar por Cada um Vive como Quer (1970), o filme de Bob Rafelson que o transformou em estrela. E protagonizou mais um sucesso de crítica um ano depois com Ânsia de Amar, de Mike Nichols. Ao estrear Chinatown, Nicholson já era uma das estrelas mais intrigantes e magnéticas de Hollywood.

Jack nasceu e cresceu em Neptune, Nova Jersey. Seus pais eram John e Ethel May, respectivamente o limpador de vidros de uma grande rede de lojas e uma cabeleireira e pintora amadora em seus tempos livres. Nicholson também tinha uma irmã mais velha, June, que queria ser atriz, mas acabou conseguindo somente trabalhar como dançarina de bar após se mudar para Los Angeles.

Jack foi depois de June. Em 1954 se mudou à meca do cinema decidido a conseguir papéis como ator e não demorou a consegui-lo: em 1958 já participava de seu primeiro filme de baixo orçamento, The Cry Baby Killer. Infelizmente, June faleceu em 1963. Nessa época Jack já havia feito alguns filmes de terror de baixo orçamento em sua carreira, vários deles dirigidos pelo legendário Roger Norman. A família continuou diminuindo: sete anos depois morreu sua mãe, Ethel May. Quando começava a alcançar o sucesso e a fama, Jack Nicholson ficou sem mãe e irmã em pouco mais de cinco anos.

E agora é quando voltamos a 1974 e ao artigo da Time e devemos mudar o dramatis personae de toda essa história. Os jornalistas da revista que elaboravam o perfil sobre a vida de Jack Nicholson, que tinha à época 37 anos, só precisaram falar com alguns vizinhos, parentes e pessoas próximas para descobrir algo assombroso: que June não foi a irmã mais velha de Jack e sim sua mãe. E que Ethel May não foi sua mãe e sim sua avó.

“Quando descobri quem era minha mãe, já era maduro psicologicamente. De fato, me esclareceu muitas coisas. Se senti alguma coisa foi, sobretudo, agradecimento”

Jack Nicholson

Segundo o artigo, June tinha 17 anos quando ficou grávida. Estava solteira e não sabia com certeza quem poderia ser o pai da criança. Quando o pequeno Jack nasceu, os pais de June decidiram educá-lo como se fosse deles e dizer que June era sua irmã mais velha. A causalidade quis que Chinatown, o filme que Nicholson estreou quando soube da história, tivesse uma cena final em que (uma cena que entrou para a história) Faye Dunaway repete: “É minha irmã, é minha filha!”. Sua personagem, se descobre, foi estuprada pelo pai, de modo que sua filha é ao mesmo tempo sua filha e sua irmã.

É difícil imaginar como alguém pode lidar com a ideia de que os entes queridos com os quais cresceu não eram exatamente o que ele acreditava. E, o que é pior, que já não estão vivos para falar com eles e esclarecer as coisas. Jack Nicholson, entretanto, declarou anos depois que foi “um evento muito dramático, mas não o que eu chamaria de traumático. Depois de tudo, quando descobri quem era minha mãe, já era maduro psicologicamente. De fato, me esclareceu muitas coisas. Se senti alguma coisa foi, sobretudo, agradecimento”.

Mas quem foi o pai de Jack Nicholson? Uma biografia do ator publicada em 1994, Jack’s Life: A Biography of Jack Nicholson (“A Vida de Jack: Uma Biografia de Jack Nicholson”) traz dois nomes: um é Eddie King, ator e colega de dança de June em seus tempos de dançarina. Seus vizinhos sempre comentaram, segundo o autor do livro, sobre a semelhança entre ele e Jack. Mas o mais provável é que o pai seja Don Furcillo-Rose, cantor e ex-namorado de June que reivindicou a paternidade, ainda que Nicholson sempre tenha se negado a realizar um teste que o comprovasse. Don morreu em 1998, mas pediu a sua filha, Donna Rose, que continuasse com sua campanha para ser reconhecido como o pai da estrela de Hollywood. Donna publicou um livro em 2001 chamado You Don’t Know Jack: The Tale of a Father Once Removed (“Você não conhece Jack: A História de um Pai Eliminado”). Ela morreu de câncer em 2005. Como uma colaboradora contou a Patrick McGilligan, autor de Jack’s Life, seu (possível) irmão Jack ligou para o hospital para falar com ela antes de sua morte.

E.P.

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