Sempre que acontece um massacre como o de Suzano, surgem as mais variadas hipóteses e teorias que tentam explicar a tragédia. Das mais absurdas e imbecis até as mais plausíveis, quase todas têm um denominador comum: a ideia de que os agressores foram previamente expostos a algum tipo de violência que teria gerado a matança suicida como resposta.

Algumas são fáceis refutar. Porque se todas as pessoas que vivem em áreas dominadas pelo crime ou que curtem games violentos se tornassem assassinas suicidas, a humanidade não existiria mais.

Culpar o presidente da república é a mais débil. Quem pensa dessa forma provavelmente errava aqueles exercícios de ligar objetos correspondentes na cartilha do pré-primário.

Mas há uma que me chama atenção: o bullying. Claro que ser vítima de bullying não é suficiente para transformar alguém em suicida assassino, mas podemos extrair um pista importante ao examinarmos a diferença entre o bullying de hoje e do passado: os instrumentos que a nossa cultura fornece para lidar com ele.

Antes da era da internet, os jovens que sofriam bullying também tinham raiva, ódio, vontade de matar, desejo de vingança, nutriam ressentimento. São emoções humanas. Mas eles tinham valores que norteavam o comportamento, funcionando como freios para os instintos ruins e como trilhos para uma vida social mais saudável. Só que esses valores foram quebrados pela ideia de que cada um pode ter sua própria verdade.

Sem referências, sem instrumentos e estímulos para lidar com o problema, muitos jovens de hoje se isolam e caem numa espiral de sociopatia. Quanto mais se isolam, menos habilidades sociais desenvolvem, mais desprezam a sociedade, menos sentido vêem na vida, mais acumulam ressentimento. Os que se tornam assassinos suicidas não parecem casos clássicos de depressão, que se matam durante uma crise. É um processo gradual.

Isolados do convívio humano, qualquer traço ou pré-disposição à depressão ou sociopatia pode encontrar terreno fértil para se desenvolver, principalmente nessas macabras comunidades de anônimos na deepweb, onde isso é estimulado. Basta alguém dar sinais de que pretende se matar, para receber incentivo para realizar o ato e levar mais gente junto, como se fosse algo heroico.

Assim, aos poucos, na medida em que os jovens se integram a essas comunidades, a ideia de entrar numa escola atirando e se suicidar em seguida começa a dar sentido a uma existência vazia: é uma rara oportunidade de se sentirem importantes.

É preciso entender que é uma atitude de auto-afirmação, de mostrar que possuem algum poder e que merecem algum respeito. Não deixa de ser uma manifestação de agressividade do cérebro primitivo, o chamado “cérebro do jacaré”, que todos nós temos e que cuida dos instintos mais básicos. É a reação a uma frustração por não poder se reproduzir (ninguém se reproduz em isolamento, né) e uma resposta às agressões sofridas.

Esse tipo de ato é basicamente o jacaré no comando, fazendo uso das estruturas mais complexas do cérebro para racionalizar a ação, conferindo um falso sentido a ela.

Os nossos instintos sempre existiram. E durante milênios nós desenvolvemos freios e trilhos (religião e moralidade) para sermos capazes de viver em sociedade e tirar proveito da vida civilizada. Até que diabólicos revolucionários resolveram dizer que esses freios e trilhos são apenas uma alienação burguesa, uma forma de opressão patriarcal que precisava ser superada. E um monte de frustrados preferiu acreditar neles do que se esforçar para viver bem em sociedade.

O resultado não poderia ser outro: uma sociedade carente de valores, onde cada um tem sua própria verdade e por isso pode encontrar justificativa para as atitudes mais covardes e destrutivas sem peso na consciência.

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